Década de 70. As UTIs começavam a receber cada vez mais pacientes submetidos à cirurgia cardíaca, principalmente as famosas pontes de safena. Naquela época, eu acumulava dupla função: era membro da equipe de cirurgia cardíaca do hospital e médico-chefe da UTI. Assim, acompanhava bem de perto a recuperação de todos os pacientes cardíacos no pós-operatório.
Certo dia, minha equipe foi chamada por um renomado cardiologista para atender a um paciente que havia sido submetido ao cateterismo cardíaco.O exame revelara diversos entupimentos severos das artérias do coração. As coronárias estavam quase totalmente obstruídas: apenas um filete de sangue fluía dificultando a nutrição do músculo cardíaco .O quadro clínico era muito grave.
Devido às queixas de fortes dores no peito durante o exame, Alberto fora transferido da sala de cateterismo para um apartamento na unidade semi-intensiva. Era uma situação que exigia cuidados especiais enquanto o paciente aguardava a cirurgia, que seria realizada no dia seguinte, às pressas, pois o infarto do miocárdio era iminente.
Dirigi-me à enfermaria da unidade semi-intensiva para saber mais informações sobre Alberto e pegar dados do seu prontuário.A enfermeira-chefe colocou-me a par do caso. Além das informações usuais, porém, ela teceu alguns comentários sobre o comportamento do paciente, um homem de 60 anos, porte físico avantajado, calvície aparente e que, apesar das dores no peito, mantinha o bom-humor e era muito falante.
“Doutor, sou formada há mais de 15 anos e há muito tempo trabalho aqui, como o senhor bem sabe. Esse novo paciente foi internado há apenas algumas horas mas estou enfrentando uma situação inusitada com ele”, disse a experiente Neuza. Ela remexeu as mãos um pouco nervosa e continuou: “Quando entrei no quarto a primeira vez para conversar com o senhor Alberto, ele foi logo me contando, de maneira muito efusiva, que era psicólogo especializado em sexologia. E então me disse: ‘Minha querida enfermeira, sou sexólogo e acho que o mundo todo gira em torno de sexo. Tenho muita experiência e posso ajudá-la bastante nessa área’”. Sem graça, a enfermeira concluiu: “Mas o pior, doutor, é que ele disse isso na frente de um grupo de mulheres que o acompanha no quarto. Não sei o que elas são dele, mas nenhuma delas parece filha, mãe, nem esposa do paciente”.
Achando aquele comportamento estranho — e no mínimo curioso –, fui até o quarto do senhor Alberto. Ao entrar, vi as quatro acompanhantes: todas muito jovens, sorridentes e extremamente carinhosas com o paciente. Duas delas estavam bem à vontade, sentadas na beirada da cama, alisando o rosto e os braços do doente. Mal tive tempo de me apresentar, Alberto foi logo me interrompendo: “Meu prezado jovem doutor, o senhor parece sorridente. Aposto que transou hoje de manhã”.
Apesar do aviso dado pela enfermeira-chefe, fiquei surpreso com o comentário e, como na época era muito jovem, cheguei a corar diante daquela conversa enlouquecida. Alberto continuou, alheio ao fato de que eu não respondera. “Doutor, conte-me uma coisa, quando o senhor se masturbou pela primeira vez? O senhor ainda se masturba? Qual a sua experiência em relações com múltiplas parceiras?”
Respirei fundo. Aquele interrogatório já ultrapassara todos os limites. “Alberto, não vim aqui para dar depoimento sobre a minha vida íntima. Preciso examiná-lo e conversar sobre a cirurgia.” Aproveitei o curto silêncio do paciente para dizer-lhe que as obstruções nas artérias coronárias eram graves, mas que com a implantação das pontes de safena, programada para o dia seguinte, ele iria se recuperar bem. Pedi a ele para manter-se calmo e não fazer esforço, pois qualquer agitação ou preocupação poderia resultar em falta de circulação coronária e culminar em um infarto do miocárdio. Todo o cuidado é pouco, disse a Alberto.
Saí do quarto preocupado com a grave situação clínica do paciente e pedi à enfermeira maior vigilância. Horas depois passei novamente pelo posto de enfermagem da semi-intensiva e uma outra enfermeira que havia assumido o plantão estava consternada.
“Doutor, eu preciso conversar com o senhor sobre o novo paciente. Quando entrei no quarto do senhor Alberto, ele estava cercado por quatro mulheres, fitou-me e disse: ‘Marilda, venha mais perto, deixa-me dar uma olhada em você. Você não está feliz hoje, qual o problema?.Está sem namorado? Há quanto tempo não transa?’ E ainda emendou: ‘Com que idade você perdeu a virgindade? Você sabe que isso tem uma grande influência no comportamento e no desempenho das pessoas no dia-a-dia.’ Doutor, eu fiquei tão sem graça. Nem respondi. Só olhei rapidamente os equipamentos de monitorização e deixei o quarto, ao som das risadinhas das moças.”
Pedi a Marilda que relatasse o caso à enfermeira-chefe para que ela pudesse ter uma conversa séria com o paciente, informando-o de que aquele comportamento era impróprio e inaceitável.
Ao anoitecer, as dores no peito de Alberto aumentaram e ele passou a receber nitroglicerina endovenosa – a mais potente substância para dilatar as artérias do coração. Assim que o paciente ficou mais tranqüilo, Claudete, a enfermeira-chefe, foi até o quarto para alertar Alberto sobre as normas administrativas do hospital e a impropriedade de seu comportamento. Ao abrir a porta, ela surpreendeu uma das jovens, que havia ficado para pernoitar na semi-intensiva, fazendo sexo oral em Alberto. Claudete só conseguiu exclamar: “Mas o que é isso… O senhor tem noção de que pode ter um ataque cardíaco neste exato momento?” Antes que Alberto pudesse dizer qualquer gracinha ou começar seu interrogatório indiscreto, Claudete saiu do quarto.
Em menos de 10 horas, o sexólogo já havia conseguido se indispor com vários funcionários. As reclamações vinham de todos os setores. A empresa que presta serviço de limpeza comunicou à administração que as faxineiras e copeiras não queriam mais atender ao quarto daquele paciente. Sempre que as funcionárias entravam, ele fazia comentários sobre a sexualidade delas. E não parava por aí: chamava as moças para mais perto do leito, tirava a coberta e mostrava toda a sua potência sexual.
Foi um escândalo. A administração não sabia mais o que fazer para conter o comportamento do paciente, que além de incomodar os funcionários colocava a sua própria saúde em risco. Por conta disso, à noite, Alberto recebeu uma dose maior de sedativos. Esperávamos que assim ele dormisse e os problemas terminassem.
Pernoitei no hospital para acompanhar de perto a evolução do paciente, que seria operado logo às 7 horas da manhã. Por volta das 5h30, decidi ir até o quarto para saber se ele estava bem. Entrei, acendi a fraca luz ao lado da porta, e o que vi mais parecia cena de filme erótico: a duas horas de ser encaminhado para a mesa de cirurgia, com entupimento de mais de 90% em três coronárias, Alberto estava transando com sua jovem acompanhante. Ao ser surpreendido por mim, ele não ficou constrangido. Disse apenas: “Doutor, o senhor também devia fazer isso pela manhã para enfrentar melhor o dia, sem estresse e com muita felicidade”. Fiquei chocado mas consegui falar, indignado: “Senhor. Alberto, o senhor vai daqui a pouco para uma cirurgia, deixe isso para depois”. Sem cerimônia ele retrucou: “Doutor, eu sei o que é melhor para mim. Depois deste delicioso alimento, vou enfrentar melhor a cirurgia”.
Na hora marcada, Alberto foi levado para o centro cirúrgico. Foram implantadas quatro pontes de safena. A cirurgia correu bem e o paciente foi transferido para a UTI, onde permaneceu sedado e anestesiado por algumas horas. Toda a equipe médica e de enfermagem que cuidava de Alberto no pós-operatório já havia sido avisada sobre o comportamento exótico e de assédio sexual praticado pelo paciente. Com bom-humor, eles
tentavam descobrir qual seria a atitude de Alberto quando acordasse.
No boxe, o paciente estava silencioso, com os olhos fechados. Tinha um tubo na garganta, um respirador para ajudar a ventilar os pulmões e equipamentos de controle do ritmo cardíaco e da pressão arterial. Com o passar das horas, o efeito anestésico foi cedendo e o paciente, acordando.
Assim que Alberto abriu os olhos e percebeu onde estava, começou a se agitar, a movimentar as mãos e quase arrancou o tubo da garganta — o que poderia complicar muito sua recuperação. Tentamos explicar a ele que em poucos minutos o tubo seria retirado e ele poderia respirar normalmente. Mas Alberto ignorava o que dizíamos. Gesticulava com as mãos e não parava de apontar para a mesa de comando central dos equipamentos. Sua agitação chegou a um ponto que fomos obrigados a conter suas mãos, prendendo-as à beirada da cama. Só quando ele se acalmou foi possível retirar o tubo de sua garganta.
Assim que foi desentubado, o paciente respirou profundamente e chamou toda a equipe. “Minha gente, pelo amor de Deus, me levem até aquele aparelho”, pediu em tom desesperado, apontando para o telefone localizado sobre a central de equipamentos. “Eu preciso fazer uma ligação urgente.”
“Mas o senhor acabou de ser desentubado, tiramos agora o ventilador dos seus pulmões e ainda está recebendo oxigênio por esse cateter. Só precisa agora de uma coisa: descansar”, disse eu, tentando dissuadi-lo da idéia.
“Eu preciso fazer esse telefonema, isso é muito importante para mim”, insistia ele. “Depois dessa ligação eu prometo me acalmar, prometo ficar tranqüilo.”
Foi tanta a insistência que decidimos levar a cama do paciente até junto do telefone. A ligação de urgência foi multiplicada por três: uma para Ana, outra para Maria e a última para Cláudia. As palavras eram sempre as mesmas: “Minha querida, hoje não poderei estar aí com você, mas tenha certeza de que faltei por uma boa razão. Em alguns dias estarei aí de novo para fazermos aquela festa sensacional. Estou morrendo de saudades”. Depois dos telefonemas, Alberto cumpriu o prometido: repousou quieto durante aquele dia na UTI.
Na manhã seguinte, quando foi transferido para a unidade semi-intensiva, o sexólogo não desgrudou do telefone que ficava à cabeceira da cama. Deve ter feito umas 20 ligações. Meloso, dizia sempre: “Estou me recuperando bem, cada dia mais forte. Em breve passaremos momentos maravilhosos juntos”. Depois do esforço que fazia para ter essas conversas, o peito costurado e as dores naturais do pós-operatório conseguiam domar o sexólogo — e livrar as enfermeiras, copeiras e faxineiras de seu assédio sexual.
Dias mais tarde, eu soube que a fama de Alberto havia chegado ao estacionamento do hospital. Enquanto estava internado, ele deixou parada sua kombi que tinha uma enorme propaganda no teto: “Psicólogo, sexólogo e casamenteiro, ligue já”.