Existem muitas instituições que abrigam pessoas idosas, algumas com bom padrão, mas a maioria em nosso meio deixa muito a desejar.
-“Os velhos ou são muito queixosos ou quietos demais”, dizia uma governanta que certa vez conheci. Mas a verdade é que frequentemente suas queixas não são muito consideradas:- afinal qual é o velho que não reclama demais, dizem tantos filhos impacientes…
O velho João, porém era diferente. Há cinco anos residia com sua esposa Luiza no Lar dos Velhos, uma instituição beneficente considerada de bom padrão. Com seus 85 anos de idade era conhecido como um velho educado e pouco falante, a não ser naqueles momentos que num ímpeto relatava as suas experiências de juventude, as revoluções e movimentos políticos e históricos que vivenciou. Sua saúde, porém periclitava nos últimos tempos: queixava-se de cansaço, às vezes um pouco de falta de ar, memória cada vez mais fraca e falta de apetite. Os discursos estavam escasseando… Quando seus filhos os visitavam em esporádicos fins de semana, percebiam que a decadência era inexorável: – coitado do papai, dizia uma das filhas mais chegadas, ao médico que fazia revisões periódicas naquela clínica: – “ele está tão acabado, muito mais que a minha mãe, que tem a mesma idade”. Ouviu do médico que João já estava tomando há alguns meses, uma variedade de vitaminas e até antioxidantes… – “mas a senhora compreende, os velhos sempre se queixam de qualquer coisa e são deprimidos demais”… -“Acho que o Sr. João não foge a esta regra”., dizia o médico..
Certo dia, porém, a situação se agravou: o velho João respirava com dificuldade, tossia e estava ficando confuso. Em poucas horas a sua pressão arterial caiu acentuadamente. Sua família foi avisada e ele foi transferido com uma ambulância para o hospital. A primeira avaliação feita no pronto-socorro confirmou que suas condições eram realmente precárias: ele não tinha a menor condição de ser tratado num quarto. Para ter alguma chance ele deveria ir para a UTI.
Alguns familiares questionaram: será que vale a pena…? Não seria muito sofrimento? Naquela idade…? Quanto mais ele poderá viver? Além do mais o paciente não tinha nenhum seguro-saúde e os custos de uma UTI, que os filhos deveriam pagar, seriam muito elevados.
Na numerosa família de João, porém, existiam alguns médicos que opinaram: o Sr. João, embora um pouco confuso, ainda nos reconhece e merece uma chance de tratamento. – “Vamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance e dar um tratamento digno ao patriarca desta família”, disse seu genro Dr. Ezequiel, um médico experiente e casado com a filha mais velha de João.
Desde o início constatamos que o caso seria difícil e prolongado: a infecção havia atingido ambos os pulmões e a oxigenação no sangue estava bem reduzida. É comum a evolução silenciosa de pneumonias em idosos sem apresentar febre e quase sem tosse! Assim aconteceu com o velho João: estava bem desidratado, tal qual um bebê que não consegue pedir água para saciar a sua sede. São as semelhanças dos extremos da vida… Não poderíamos esperar: rapidamente um tubo foi introduzido na sua garganta e traquéia permitindo assim o uso de um respirador artificial. A hidratação foi restabelecida através da administração de vários frascos de soros e outros medicamentos.
Percebemos em poucas horas, que a coloração marmórea no início, desapareceu e os exames mostraram uma melhora da oxigenação. O uso de sedativos em pequenas doses eram suficientes para amenizar esta estranha e desagradável sensação que o tubo na garganta habitualmente causa nos pacientes entubados. Uma complicação, porém, foi logo constatada: os exames de sangue demonstraram que os níveis de uréia estavam elevados: João estava com uremia. A desidratação deveria ter sido prolongada e afetado os velhos rins do idoso João. Se não fosse submetido à diálise com urgência, outras complicações como sangramento poderiam ocorrer o que agravaria ainda mais uma situação que já era crítica. Poderia ser o fim.
O fato foi levado ao Dr. Miler seu médico titular e discutido com a numerosa família. Houve certa concordância, embora desta vez não unânime, em realizar a diálise peritoneal, um procedimento que tem o mesmo efeito que um rim artificial: João estava consciente e após o tratamento inicial que recebeu na UTI passou a reconhecer Luiza e outros familiares. O investimento deveria prosseguir, mas os custos estavam se tornando elevados após os três primeiros dias de internação: os recursos utilizados para o tratamento de doentes graves são habitualmente caros, e o caso de João se enquadrava nesta situação.
A diálise peritoneal foi instalada sem maiores problemas. Era um procedimento rotineiro numa UTI: um tubo de plástico foi introduzido na cavidade abdominal e através deste, soluções de líquidos especiais eram infundidas e após certo tempo drenado, retirando o excesso de uréia e outras substâncias tóxicas que eram eliminadas do organismo. O procedimento foi repetido várias vezes, enquanto se aguardava que os rins de João se recuperassem e voltassem a funcionar normalmente.
A diálise deu certo: João apresentava-se bem enquanto recebia este tratamento artificial. Ele dependia da diálise para sobreviver. Mas seus rins não mostravam sinais de recuperação. E os dias passavam, os custos se elevavam e durante todo este período, sua família permanecia e se revezava na sala de espera da UTI: o esgotamento físico e emocional tornava-se evidentes entre os mesmos.
Conflitos e discordâncias passaram a se tornar rotineiros entre os familiares: -“mas como é demorado este tratamento”, diziam uns, “que tortura é a UTI”, diziam outros. Em conversas que mantinha com os parentes de João sempre procurava argumentar que todos nós estávamos no mesmo barco. Iniciamos um tratamento para recuperar a saúde do paciente, estávamos usando os melhores recursos que existem, mas a evolução não dependia somente desta atitude; João precisava reagir e esta reação poderia ocorrer mais cedo ou mais tarde, mas era imprevisível.
Percebia que a família de João sentia, e com toda a razão, o peso dos custos de tantos recursos utilizados no tratamento intensivo. E para agravar ainda mais a situação o velho começou novamente a apresentar febre, piora do quadro pulmonar, necessidade de troca dos antibióticos por outros mais potentes, enfim mais complicações.
Já se passavam seis dias desde a admissão de João na UTI e nesta altura dos acontecimentos o Dr. Ezequiel, representando a descompensada família, convocou uma reunião com o Dr. Miler, que por sua vez solicitou a nossa presença. O esgotamento estava estampado na face de todos. Alguns mais revoltados, nem se sentaram e ficaram todo o tempo em pé naquela sala, pequena para conter todas aquelas pessoas. Logo de início o Dr. Miler expôs de forma didática a evolução clínica do Sr. João e lamentou as agruras que todos estavam passando. -“estamos procurando recuperar a saúde de vosso ente querido usando todos os recursos que a moderna medicina propicia, mas nem tudo ocorre como gostaríamos…”.
- Mas doutor, disse um dos netos do paciente, que medicina moderna é esta que só prolonga a vida de alguém que já deve ter chegado ao fim de seus dias, com tanto sofrimento e com custos tão elevados. Solicitei, então, a palavra e procurei novamente assegurar que dentre os cuidados que prestávamos aos pacientes graves, um dos mais importantes eram aqueles que aliviavam o sofrimento, através de sedativos e outros procedimentos e que preservavam a sua dignidade como princípio básico de humanização. Achei inicialmente que aquelas palavras tivessem produzido algum impacto. Que nada, cada um começou a manifestar
ao mesmo tempo a sua opinião o que transformou aquela reunião num princípio de tumulto.
Como estas opiniões tornaram-se tão diferentes daquelas manifestadas por ocasião da internação do velho João! Algumas palavras ressoaram naquela pequena sala: “sofrimento”, “tortura”, “também tenho meus afazeres”, “a vida continua”, “é muito caro”, “quem vai pagar”… até eutanásia!!! Naquele momento consolidei mais uma vez um conceito que formei no decorrer de muitos anos tratando de doentes graves: “conhece-se uma pessoa , durante um jogo, sob o efeito de bebida ou na sala de espera de uma UTI”.
Após um pequeno intervalo os familiares solicitaram uma reunião reservada e logo depois fomos convocados. Haviam decidido: “- O prosseguimento do tratamento do velho João seria fútil, prolongaria seu sofrimento, sem qualquer perspectiva de uma qualidade de vida futura que compensasse todo o sacrifício e investimento..”. O Dr Miler concordou que o caso era muito grave, mas ponderou que qualquer interrupção no tratamento poderia ser fatal para o Sr João e sugeriu que continuasse com o mesmo esquema terapêutico até uma definição mais consistente da evolução clínica do paciente.
Naquele momento cheguei a pensar que poderia haver alguma coerência na argumentação da sofrida família, mas predominou o conceito que adquiri nestes anos: “a única certeza que tenho é que não sei quando e se deve ser interrompido um tratamento….”
Reunimo-nos desta vez particularmente com o Dr. Ezequiel, que naquele momento apresentou a decisão da família: – “consideramos todos os aspectos desta terrível e incômoda situação e concluímos que chegou a hora do nosso querido João descansar em paz. Chega de sofrimento! Decidimos não mais autorizar a realização da diálise…”. Imediatamente, Dr. Miler reiterou que esta atitude poderia acarretar um quadro de uremia e a conseqüente morte do paciente. -“Sabemos disso” , disse o Dr. Ezequiel, desta vez apoiado por outros dois médicos mais jovens, netos de João,- “ mas insistimos que ele receba toda a sedação necessária para evitar qualquer dor ou sensação desagradável”.
Acreditamos que foi uma decisão muito difícil de ser tomada pelos familiares de João e até achamos que poderia haver alguma lógica nesta atitude visando aspectos humanitários e não prolongar o sofrimento de um ser que já havia vivido mais de oitenta e cinco anos e que estava sendo mantido com recursos artificiais num ambiente estranho. Tínhamos que respeitar esta decisão e assim foi feito: a diálise foi interrompida.
Mas não poderíamos desligar o oxigênio, nem deixar de fornecer água e alimentos pela sonda naso-gástrica, necessários para as necessidades básicas do paciente: seria decretar a sua morte de uma forma consentida.
Sabendo de nossas ponderações a família concordou que fossem mantidos estas prescrições básicas para o velho João.
Foi um dia extremamente tenso e conflitante. Todas as vezes que enfrentamos este tipo de situação, sentimos que não existe uma solução mais ou menos correta para determinadas circunstancias e que ninguém é dono da verdade.
Aparentemente, pelo menos, a família de João parecia mais aliviada com a decisão tomada, mas não deixavam de transparecer estafa e desconsolo.
João estava clinicamente estável: sua pressão e pulsos arteriais permaneciam normais. A respiração era débil, em parte motivado pelos sedativos administrados continuamente. A quantidade de urina que ele eliminava era discreta, decorrente do grave comprometimento de seus rins. A deterioração de seu estado era esperada para as próximas horas.
No dia seguinte o estado de João permanecia praticamente igual ao do dia anterior. Não tínhamos qualquer noção sobre alterações sanguíneas, pois a requisição de exames de laboratório havia sido suspensa. Era uma questão de coerência: para que solicitar exames que teriam um custo elevado se nenhuma atitude terapêutica seria adotada após a decisão familiar!
No oitavo dia de internação o aspecto de João parecia sereno: não demonstrava qualquer sinal de dor. Porém o que mais surpreendia era a ausência da tão esperada deterioração de seu quadro clínico. A pressão não caía e o pulso estava só um pouco elevado. -“Que resistência, como ele é forte”, diziam alguns familiares. Até a equipe médica acostumada e vivenciada em tratamento de doentes graves começou a se surpreender.
Alguns parentes que estavam planejando a viagem de retorno para as suas cidades de origem tiveram adiá-las sucessivamente. E João não morria. Todos nós, médicos, enfermeiros e familiares estávamos perplexos. Até nestas circunstâncias João mostrava a sua teimosia: não queria morrer, dizia uma das filhas desconsolada.
No décimo segundo dia de internação Dr. Ezequiel solicitou uma nova reunião com os médicos do teimoso sogro.
-“Estamos esgotados física e emocionalmente: não agüentamos mais esta agonia”, disse lacrimejando o experiente profissional.
-“É uma situação muito difícil e a única atitude que devemos tomar é fazer uma reavaliação completa do paciente e retomar o tratamento”, disse Dr. Miler. -“Não temos outra solução…”
A família entregou a decisão para a equipe médica.
Exames de laboratório, radiografias, eletrocardiogramas, etc… foram realizados e o quadro clínico do idoso foi reavaliado .
Recomeçou-se a diálise peritoneal, antibióticos foram reintroduzidos assim como outros medicamentos.
Os dias foram passando…
Um ano depois João compareceu a UTI, agora para visitar sua esposa Luiza que havia sido operada…
Cumprimentou e sorriu para todos…
Soube depois que faleceu com noventa e nove anos.