Mal chegara ao hospital e já havia uma mensagem. Dona Mary , uma antiga paciente havia sido removida de ambulância ao pronto atendimento com intensa agitação e suspeita de infarto do miocárdio. Foi transferida para Unidade Semi-Intensiva e quando cheguei ao seu quarto notei que estava só e profundamente sedada. O aspecto desta senhora com seus sessenta e poucos anos era deprimente. Uma face de sofrimento, com lágrimas escorrendo pela sua face e borrando toda sua maquiagem. Nem parecia aquela mulher bonita, cabelos negros e curtos, elegante, bem maquiada, com sotaque francês, um espécime da belle epoque , que compareceu a meu consultório pela primeira vez, há uns dez anos. Contrastando com o aspecto charmoso esta mulher era prepotente e até certo ponto arrogante. Contestava e questionava as minhas condutas :
- Doutor mude este remédio. Não vou tomá-lo, tenho a certeza que fará mal para mim. E tinha que me adaptar as suas exigências . Só assim acabei conseguindo controlar a sua hipertensão arterial. Com o decorrer do tempo percebi que aquela misteriosa mulher era uma sofredora. Com confiança adquirida acabou me contando aspectos de sua vida, a maioria muito dolorosos.
Nascida na Romênia mudou-se para a França quando moça, onde residiu por muitos anos, passando antes por um estágio prolongado num campo de concentração. Mas, como ela me confessou, sua maior desgraça foi a doença de seu marido: quando seu casal de filhos já eram adolescentes, ele foi acometido por uma doença neurológica que causava uma paralisia progressiva. – Doutor um homem forte, alto, bonito, cobiçado quando solteiro por todas minhas amigas, jazia naquela época numa cama, locomovendo-se somente com o auxilio de uma cadeira de rodas. Não conseguia nem realizar as mínimas necessidades sem o auxílio de uma enfermeira. Esta, sim era uma santa dedicada e abnegada. Não saia de seu lado. Cuidava dele como se fosse sua filha. Isto atenuava um pouco seu sofrimento sabia que seu marido tinha uma assistência adequada.
Com o tempo passei a entender melhor aquela pobre mulher e fiquei solidário com o seu sofrimento. Uma verdadeira viúva de marido vivo. Só, assumindo todas as responsabilidades da casa, filhos adultos e com vida própria, ao lado de um inválido que numa certa época “tinha me transformado na mulher mais realizada do mundo” – em todos os aspectos, doutor, dizia ela com certo orgulho. Mas logo caia na realidade e as lágrimas jorravam. Imaginei, que num certo dia, quando o seu marido falecesse, ela poderia, quem sabe, reconstruir a vida e recuperar, em parte, aquilo que perdera.
Mas lá jazia a sofredora. Ameaçando acordar e saber que eventualmente teve um sério problema cardíaco. E quem cuidaria das coisas, pensei. Finalmente despertou: abriu os olhos e me viu. Estava visivelmente transtornada e com evidente aspecto de desespero. Peguei sua mão e perguntei:
- Mas o que aconteceu?
- Doutor, aconteceu o pior.
Nestas alturas, antes que ela pudesse completar suas palavras, imaginei um acidente grave com seu marido, uma piora de sua doença que vinha progredindo.
- Mas afinal o que houve? O que aconteceu?
Ela não esperou eu terminar e disse:
-Doutor, meu marido se foi.
Bem, neste instante, eu peguei suas mãos, e as segurei com força. Tentou falar algumas palavras, mas não permiti:
- Não dona Mary, não! Neste momento a senhora não vai falar nada! Só vai me ouvir.
- Mas doutor…
- Não, desta vez, não. Sempre fui muito paciente , ouvindo todas as suas queixas, seus lamentos, seus problemas,…Estou bem inteirado de todos eles. Conheço sua história, fiquei solidário com o seu problema, mas agora a senhora vai sentar aqui e me ouvir .
- Sei que a senhora está sofrendo, porque seu marido se foi. Mas olhe, eu tenho muitos anos de experiência tratando pacientes graves. Seu marido sempre foi um homem forte, bonito como a senhora me descreveu. Infelizmente nunca cheguei a conhecê-lo, mas tenho a certeza que seu sofrimento era enorme.
- Esta doença atingiu a sua dignidade: um sofrimento não só físico como psicológico. Um sofrimento emocional para quem foi tudo o que ele foi, para quem representou tudo o que ele representou na sua empresa, para aquele que foi um pai de família exemplar um excelente marido com todas aquelas qualidades que a senhora inclusive me confessou por confiança. Este homem não merecia continuar sofrendo.
Então ela me interrompeu:
-Mas doutor, e eu…
- Não, a senhora agora vai ficar calma e só me ouvir. Eu não lhe dou, neste momento, a liberdade para falar, seu sofrimento é enorme. Sei que seus filhos e netos também sentirão falta de um pai e avô. Mas não como ele estava, não com uma doença que interferia sua vaidade, masculinidade e dignidade.
-Muitas vezes a morte súbita é uma benção divina, um ato de bondade para acabar com este sofrimento e martírio. Confesso também que também fico aliviado com este desfecho.
Enquanto falava com entusiasmo ela tentou me interromper por diversas vezes, o que não permiti.
Num certo momento, já com a garganta seca, os olhos avermelhados e emocionado parei de falar.
- Doutor, agora vou falar. O senhor não vai me impedir.
- Doutor. O meu marido se foi.
- Eu sei, interrompi .É difícil perder um ente querido.
- Doutor, o senhor não entendeu nada. Meu marido se foi, sim, mas foi embora de casa com a enfermeira!!!
Neste momento, senti como se um raio tivesse atingido minha cabeça. Fiquei atônito e estupefato olhando para dona Mary. E ela olhando para mim com as mãos cobrindo sua face e com uma sensação de ridículo. Mas ela tirou as mãos de sua face e me fitou:
-Doutor, ele não está mais em casa. Deixou uma carta, escrita pela sua enfermeira, ou melhor, pela sua amante. Soube que enquanto sua doença evoluía e o deixava deprimido, ela começou a estimulá-lo sexualmente, percebeu que esta parte não havia sido afetada. Agora eu entendo porque às vezes ele insistia para eu me distrair viajando para o exterior ou para visitar um parente. Imagino o que acontecia na minha cama.
E agora ele foi embora de casa. Com ela…
- Doutor, ele não morreu. Ele está bem vivo. Quem morreu fui eu.
Continuava perplexo, ouvindo o que parecia ser um conto de ficção e sem saber “onde enfiar a minha cara”.
Mas ela tentou
me consolar:
- Doutor, sua reação bem intencionada. Não fique chateado.
Um dia depois dona Mary teve alta e nossos contatos passaram a ser menos freqüentes. Sempre que ela vinha ao consultório, algumas vezes acompanhada de sua filha que havia voltado do exterior, eu perguntava discretamente por notícias de seu marido. Algum tempo depois foi operada do coração e seu estado mental teve uma progressiva deterioração. Meses depois ao entrar num salão de festas, encontro sentados numa mesa, dona Mary, seu filho, ainda solteiro, sua filha com seu marido e pasmem, um senhor numa cadeira de rodas, ao lado de dona Marta. Ela bem vestida, compactuando pouco com as pessoas. Ele um senhor sorridente, doente, mas não tão doente como a gente imaginava. É uma cena que ficou marcada em minha memória, mas foi mais um aprendizado que se tem na vida.
Sei que talvez minha pretensão de ser um psicólogo num momento difícil não foi coroada de melhores êxitos, mas acho que a intenção valeu e serviu como mais uma lição que aprendo nesta vida em contato com meus pacientes.