Numa daquelas manhãs nubladas, comuns em São Paulo, a Unidade Coronária Móvel do hospital foi chamada para um atendimento de urgência no Aeroporto de Congonhas. Inicialmente as informações que nos chegavam não eram precisas, mas posteriormente soubemos que um empresário havia sentido um mal estar intenso, desmaiando ao descer a escada do avião. Era um quadro altamente suspeito de ataque cardíaco.
O paciente, sr. Rodrigues, chegou ao hospital muito pálido, tenso e queixando-se de fortes dores no peito. Foi imediatamente encaminhado para o Centro de Terapia Intensiva e internado num apartamento da unidade semi-intensiva. Esta unidade é especialmente indicada para o pacientes com problemas cardíacos pois, além de possuir todos os equipamentos necessários, permite a presença de um acompanhante, tornando o ambiente menos estressante que a UTI.
Aos 60 anos, fumante, obeso e sedentário, o sr. Rodrigues, empresário bem sucedido, apresentava todas as características propícias de um candidato a ter um infarto do miocárdio. O médico de plantão era um veterano da equipe e, como de hábito, fez a avaliação inicial, aguardando a chegada do médico titular do paciente. Como este não se encontrava lá no momento, o plantonista nos apresentou o caso clínico e, de comum acordo, decidimos começar os exames para diagnosticar se o empresário havia realmente infartado.
O eletrocardiograma apresentava-se normal; os batimentos cardíacos, também. Só restava esperar pelo resultado dos exames de sangue. A elevação das enzimas cardíacas já seria um indício importante para a comprovação do diagnóstico.
Junto à janela do quarto do sr. Rodrigues encontrava-se uma senhora loira, que aparentava ter também uns 60 anos, e que se apresentou como esposa do paciente. Expliquei à dona Julia que seu marido estava passando bem, mas que em casos de infarto ou pré-infarto, as primeiras 24 horas são bastante críticas e requerem cuidados especiais, com os recursos tecnológicos de uma unidade semi-intensiva, onde é possível monitorar o paciente, controlando-o à distância. A senhora não fez perguntas, apenas consentiu, meneando a cabeça positivamente. Apesar de visivelmente nervosa e inquieta, ela me pareceu um tanto indiferente, como se não estivesse entendendo exatamente a gravidade da situação. Enfim, nem todos reagem da mesma forma nos momentos de crise, pensei.
Algumas horas depois, já tínhamos os resultados de alguns exames do paciente: as dosagens dos marcadores de lesão cardíaca estavam absolutamente normais, mas o sr. Rodrigues continuava referindo-se às dores no peito, que persistiam apesar da medicação sedativa e dos vasodilatadores que lhe vinham sendo aplicados.
É sabido que, nas primeiras horas que se seguem a um infarto, o eletrocardiograma pode não apresentar alterações. E repetidos eletrocardiogramas do sr. Rodrigues não apresentavam quaisquer anormalidades. Nesses casos, não se pode basear o diagnóstico só em exames: a clínica é soberana. O raciocínio clínico deve prevalecer sempre. Isso não saía do pensamento da equipe que assistia ao paciente.
O tempo ia passando e, como o médico titular do empresário ainda não havia sido localizado, continuamos a orientar o tratamento. A pressão arterial mantinha-se em níveis adequados, o ritmo cardíaco era normal e os resultados dos demais exames apresentavam-se perfeitos. Mas o sr. Rodrigues continuava agitado, queixando-se de mal estar e insuportáveis dores no peito.
O ambiente no quarto estava tenso; o paciente gemia, enquanto dona Julia permanecia calada, aparentemente distante de tudo o que se passava. Por vezes a tensa senhora levantava-se da poltrona e caminhava pelo quarto, esfregando as mãos, coçando a cabeça e suspirando. É o tipo de cena que estamos acostumamos a presenciar quando existe alguma ameaça à vida de um ente querido. Mas senti algo de estranho no ar carregado daquele quarto. Um dado subjetivo? Sem dúvida. O fato objetivo era que o sr. Rodrigues poderia desenvolver um ataque cardíaco com consequências imprevisíveis em nossas barbas, o que não seria muito agradável para ninguém .
Do ponto de vista médico, porém, havia uma total incompatibilidade entre as queixas do paciente e seu estado geral (pressão, eletrocardiograma, ritmo cardíaco…). Conversando com alguns colegas, concluímos que não poderíamos esperar mais. Seria um risco muito grande permitir que um infarto ocorresse na nossa presença, sem que tomássemos qualquer atitude. Deveríamos submeter o paciente a um cateterismo cardíaco de urgência, que iria esclarecer definitivamente qualquer dúvida e permitir o tratamento correto. Fui até ao quarto do paciente, na unidade semi-intensiva, dar essa notícia.
- Sr. Rodrigues, por motivos de força maior não podemos contar com a presença de seu médico, mas o tempo urge e precisamos tratá-lo da melhor forma possível. Todos os exames que até agora foram realizados não estão nos ajudando a fechar seu diagnóstico. Não nos resta outro meio de diagnosticá-lo, senão através de um cateterismo. Trata-se de um procedimento…
- Eu sei muito bem o que é cateterismo, doutor, disse o empresário, de um salto sentando-se na cama. – Não! Cateterismo, não!
- Mas, sr. Rodrigues, não há o que temer, este é um exame muito seguro nos dias de hoje, tentei argumentar.
- Não, não e não! Cateterismo não, repetiu o paciente, com veemência.
Na verdade, nunca vi um paciente aplaudir e ficar feliz com a indicação de fazer um cateterismo cardíaco. Mas fiquei surpreso com a reação extremada do empresário. Busquei dona Julia com o olhar. Ela permanecia apática, indiferente, num canto daquele ambiente carregado. Muito estranho, pensei. A própria esposa não se manifesta? Tentei mais uma vez convencer o paciente.
- Sr. Rodrigues, alguma conduta precisa ser tomada. Não podemos mantê-lo aqui sem que….
- Já disse que cateterismo eu não faço e pronto! — ele quase gritou, interrompendo-me novamente. – Sou adulto, estou consciente e, portanto, assumo a responsabilidade dos meus atos. Se for o caso, assino qualquer documento isentando o senhor de qualquer responsabilidade, disse num tom já mais agressivo.
Saí do quarto completamente atordoado. E inconformado. Não conseguia entender a reação do empresário e, muito menos, o silêncio estranho de sua esposa, que não arredara o pé daquele quarto por um instante sequer, mas tratava o marido com uma frieza constatada por todos os colegas e amplamente comentada pela enfermagem.
A situação era muito delicada. Não podíamos dar prosseguimento ao tratamento do paciente sem diagnóstico. Ao mesmo tempo, o sr. Rodrigues se recusava a ser submetido a uma intervenção (invasiva e de certo risco, é bem verdade), que seria o único recurso disponível para podermos ajudá-lo. Como íamos deixar um paciente numa Unidade Semi-Intensiva com dores no peito e apenas medicado com fortes sedativos?
Felizmente, nesse meio tempo o médico titular do empresário havia sido localizado. Quem sabe, pensei esperançoso, o doutor Paulo, profissional que já acompanhava havia anos aquele paciente, conseguiria convencê-lo a fazer o bendito cateterismo cardíaco. Assim que chegou ao hospital, discutimos com o médico o caso clínico e apresentamos todos os exames realizados. Doutor Paulo confirmou nossa opinião e achou indispensável a realização imediata do cateterismo.
Entramos juntos no quarto. O sr. Rodrigues colocou mais uma vez a mão no peito e gemeu de dor. Mais sedativos foram aplicados, enquanto o paciente e sua mulher ouviam as mesmas explicações, só que desta vez da boca do doutor. Paulo.
Num repente ato de fúria o sr. Rodrigues disparou, em voz tão alta que os profisionais que passavam pelo corredor da unidade ouviram:
- Eu não vou fazer nem cateterismo nem nenhum outro exame! Querem saber o que mais? Quero que você, Julia, e todos os médicos vão à merda!
O empresário então levantou-se da cama, arrancou todos os fios dos monitores e aparelhos, vestiu sua roupa e saiu em disparada do quarto e do hospital. Ninguem se atreveu a barrá-lo, tal a fúria que demonstrava. Ficamos boquiabertos e estupefatos. Tentamos ir atrás do paciente, mas ele já havia descido pela escada lateral e ido embora. Curiosamente, dona
Julia permanecia imóvel, sem dizer uma palavra, no mesmo canto do quarto.
Logo em seguida, porém, o mistério começou a ser desvendado e o “caso clínico” foi esclarecido. Ficamos sabendo o que de fato ocorrera: ao voltar de um agradável fim de semana com sua secretária e amante, descendo as escadas do avião, o sr. Rodrigues deparou-se com a esposa, que desconfiara da viagem de negócios do marido e resolvera fazer-lhe uma surpresa, esperando-o no aeroporto. O sr. Rodrigues realmente quase desfaceceu, mas foi de susto. Então tentou simular um infarto, escapando, assim, do confronto imediato.
Mas não deu certo.