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A vida por um fio – e por inteiro – Dr. Elias Knobel


Elias_Knobel_2A vida por um fio – e por inteiro – Entrevista feita pelos jornalistas Morris Kachani e Flávia Martinelli, em Outubro de 2005 e publicado no site “NoMínimo

Dentro de um hospital, não existe espaço mais dramático do que a UTI. É lá que as verdadeiras batalhas pela vida são travadas com maior intensidade. Onde, como bem lembra o escritor e médico Drauzio Varella, “os intensivistas conduzem doentes que estão no fio da navalha, e qualquer deslize, o menor infortúnio, o mais insignificante capricho da natureza pode significar o final de tudo, num instante. A tensão resultante da natureza desse trabalho afeta a vida pessoal de todos. Não há quem fique imune”.

É neste cenário que se desenrola a vida do médico cardiologista Elias Knobel, 61 anos, 33 deles dedicados à chefia do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein, que ajudou a fundar em 1972. Homem de fala precisa e pontual, como sua superlotada agenda requer, Knobel é catedrático no assunto. Aprendeu como ninguém a lidar com o trabalho, e não só do ponto de vista estritamente científico. Pois a UTI, como costuma dizer, é um microcosmo da aventura humana. Onde caem as máscaras.

Pelos seus corredores se vêem disputas por heranças, brigas por partilha de bens, amigos se reencontrando. “Vi parentes que se conheceram na sala de espera quando, no leito da UTI, estava o doente que mantinha uma família extra-oficial e ninguém sabia. Definitivamente, ali nascem paixões, descobrem-se curiosidades, demonstra-se amor de todas as formas”.

Apesar de ocupar um cargo administrativo no hospital como vice-presidente há dois anos, Knobel ainda segue a rotina diária de visitas à UTI, onde gerencia atualmente 400 pessoas trabalhando, entre médicos, enfermeiros e operadores. Além dos pacientes: 40 leitos na intensiva, 41 na semi-intensiva, 22 na coronária.

Algumas das histórias descritas nesta entrevista aparecem em um livro lançado em 2003 de sua autoria, e organizado pelas jornalistas Anna Costa e Lucia Barros, curiosamente intitulado “Memórias Agudas e Crônicas de uma UTI”. É o único dos seus livros feito para leigos. Junto com sua equipe, Knobel já lançou mais de 50 obras especializadas. Seu “Condutas do Paciente Grave”, com 142 capítulos e 1800 páginas, é best seller, o segundo na área médica mais vendido no Brasil, já na terceira edição.

O que de mais importante esses anos todos na UTI lhe ensinaram?

Ah, seguramente fiquei mais humilde. Nunca fui arrogante, sempre caminhei em busca da ciência. Mas hoje, depois de 38 anos de profissão, eu tenho mais dúvidas que certezas. Seguramente, tenho mais experiência, porém as dúvidas sobre a maneira de lidar com o ser humano são muito maiores. Existe o profissional que chega e fala assim: “deixa comigo, esse paciente vou tratar e vai dar certo”. Existem médicos que se consideram semideuses. Eu não digo isso. Sei que nem sempre é assim. O mesmo vale para o comentário “esse daqui está perdido”. Não acredito nisso. A única certeza que tenho ao tratar alguém é que não tenho certeza do que vai acontecer. Na UTI, cada minuto é um. É essa a medida do meu estresse.

O tempo todo?

Estou sem referências. Não sei como se trabalha fora de uma UTI! Nesses 33 anos de UTI, passaram por mim mais de 55 mil pacientes. Como posso comparar esse tipo de atividade ao do médico do consultório? Não sei. Posso afirmar que a UTI é um lugar difícil. Ainda estudante, trabalhei três anos numa maternidade. Ali, todo mundo só vinha com sorrisos. A UTI é diferente mesmo. A gente olha para aquela pessoa doente que podia ser um filho seu ou sua mulher, seu pai, mãe. Todo dia…

Como funciona o dia-a-dia de uma UTI?

O dia-a-dia da unidade é feito da mesma trama de todas as coisas da vida, com um detalhe: o paciente está sempre no limite. Nesse contexto, cada gesto, cada ação ganha um significado próprio e especial: assistir a um jogo, rever um parente, fazer um movimento, escrever um bilhete, comunicar-se – tudo passa a ter um sentido novo. E enquanto aparelhos monitoram 24 horas as funções vitais de um paciente, enquanto antibióticos chegam ao organismo por meio de tubos e enfermeiros acompanham cada minuto da luta titânica de um ser humano por sua vida, esta, em seu mais amplo sentido, continua ao redor, caminhando de forma paralela.

Ainda hoje, décadas depois de sua criação, a sigla UTI inspira medo e ansiedade.

É verdade. Quase ninguém faz idéia do que se passa numa UTI. As pessoas ligam a UTI à morte por fruto do mais absoluto desconhecimento. Eu prefiro chamar a Unidade de Terapia Intensiva de corredor da vida. O índice de eficiência de UTI é significativo: mais de 90% das pessoas sobrevivem, após um período médio de internação de quatro dias. A UTI é um espaço de excelência médica que reúne o que há de mais avançado no conhecimento científico e tecnológico para lutar contra as doenças.

Você acha que as pessoas se tornam melhores depois de sair da UTI?

Ah claro, sem dúvidas. Tive um paciente que era chamado de “o terror da Receita Federal”. Um cara duro, difícil de lidar. Ele tinha um coração duro como rocha antes da ameaça de doença. Depois, no pós-operatório, era outra pessoa. Ficou leve e humilde equiparando-se aos outros mortais.
Nesses longos anos de atividade, acompanhando não só doentes graves, mas também seus familiares, percebo que há momentos em que todos os problemas do dia-a-dia se tornam supérfluos e são colocados em terceiro plano. Tudo se esquece: mágoas, ressentimentos, antagonismos e problemas financeiros… É quando o bem maior está em jogo: a vida. Pena que esses sentimentos sejam tênues e rapidamente se desvaneçam.

E entre homens e mulheres da UTI, há peculiaridades de comportamento?

Mulher é mais fácil de tratar. Elas são mais conscientes. A minha impressão é a de que elas são mais fortes para lidar com a dor.

Os sentimentos afloram quando uma pessoa vai para a UTI. Existe mesmo aquela história de repassar mentalmente o filme da própria vida?

É verdade. Isso acontece. Lembro de um professor meu da faculdade. Ele tinha as seguintes características: era cardiologista, atarracado, bigodudo, com cabelo levantado para o alto, voz grossa, conversava pouco, era solteirão, celibatário, fumava como um doido e era cardíaco. Esse médico andava com aventalzinho de manga curta na sala de raio-X sem usar proteção. O tempo passou e, um dia, encontrei esse ex-professor com câncer de pulmão. Ele foi internado várias vezes no Einstein. E numa dessas idas e vindas, soube que tinha arrumado uma namorada. Aí, passo no box dele na UTI, e vejo uma cerimônia de casamento! Veja só, ele se casou na UTI! Saiu de lá, viveu mais um tempo até que teve um infarto e morreu. O cara era cardiologista, lembra? Estava se tratando de câncer de pulmão e morreu do coração.

Na UTI as máscaras caem.
Sem dúvida. Posso afirmar, sem medo de errar, que se conhece uma pessoa sob efeito de bebida, durante um jogo e na sala de espera de uma UTI. Depois de um tempo, a pessoa deixa transparecer o que ela é. Existem alguns momentos mágicos durante uma internação. O momento inicial é um deles. É a hora em que o paciente, muito mal, é levado ao hospital e a família quer fazer tudo para que ele seja salvo. Ninguém quer saber quando vai custar, quer o melhor tratamento. É a fase “faça tudo o que for possível, doutor”. No primeiro dia, o paciente melhorando, ouço “é Deus no céu e o senhor na terra, doutor”. Aí, passam dois dias, quatro… No quinto, as famílias começam a ter uma doença chamada ‘hospitalite’. Ocorre principalmente quando não há uma perspectiva de melhora ou de alta do paciente. Na fase da ‘hospitalite’ ouve-se: “Olha só como aquele elevador demora”, “o estacionamento está ruim”, “a comida daqui precisa melhorar”. Familiares viram-se para mim e dizem: “eu esperava alguma coisa a mais”.

Todas as famílias se comportam de maneira parecida?

Existem várias personalidades. Além do familiar que reclama de tudo, há aquele que é neurótico, o tremendamente exigente, o obsessivo, o dependente. Há casos em que o paciente chega com uma parada cardíaca, você põe o tubo, põe o cateter, tira da parada, ele reage, melhora, está quase saindo, já acordando, reconhecendo um familiar, mas está escorrendo no cantinho da boca um pouco de saliva. E o familiar vai ficar indignado: “Como pode tratar alguém assim! Que absurdo!” Mas tem caso em que surge uma complicação e o familiar fica com pena do médico porque percebe que você ficou triste. Tem todo o tipo de gente na UTI. Aqui você conhece a vida, é possível conhecer o mundo numa UTI.

As aflições familiares se revelam.

“Ele não morre logo! Tenho meus afazeres”. “Por que vocês estão mantendo ele vivo?” É típico. As famílias tendem a jogar todas as esperanças em cima do profissional de saúde. É uma expectativa muito grande. Mas, atrás dessa expectativa, está escondida toda a base do iceberg, toda a história de relacionamentos, conceitos, preconceitos familiares. E o médico tem de lidar com isso o tempo todo, não só com o novo antibiótico, o aparelho, as descobertas científicas.

São diálogos difíceis.

Um dia, no corredor, estavam os pais de um rapaz com Aids. Família da alta sociedade, gente de dinheiro. Eles me abordaram: “Doutor, nosso filho está aí, com tubo, vivendo artificialmente. O senhor sabe da doença que ele tem, não?” Respondi que sim, o pai continuou: “O senhor tem filho, doutor, tem família… O senhor tem sentimentos? Já se conscientizou do ato desumano que está cometendo?” Perguntei a esse senhor o que ele achava que eu deveria fazer. Ele disse que eu deveria desligar os aparelhos. Logo depois, chegou o rapaz que morava com o paciente e me disse: “Doutor, por favor, faça tudo para salvar a vida dele. Tudo. ” Aí, vi quem era o tutor verdadeiro daquele paciente. E era a ele que eu deveria obedecer. E ele viveu mais três meses.

São comuns os casos de familiares que fazem questão de oferecer o melhor como penitência?
Muito comum, acontece o tempo inteiro. O que é pior: quando a internação torna-se longa, as chances, mínimas e as contas, altas, todo o aparato exigido no início do tratamento passa a ser considerado exagerado e desnecessário. Há casos graves que não devem entrar na UTI. Vivenciando o dia-a-dia de uma UTI, aprendemos rapidamente que qualquer investimento em quem amamos – seja afetivo, financeiro ou qualquer outro – deve ser feito enquanto existe uma vida que pode ser vivida. De nada adianta resgatar o tempo perdido durante a vida no momento da morte. Esse é um caminho sem saída e sem retorno.

Alguma história marcante sobre essa insistência em preservar a vida do paciente ao máximo?

Um senhor, com mal de Alzheimer avançadíssimo, tinha como único parente um sobrinho. Esse rapaz chamava a atenção pelo esforço em cuidar ao máximo do tio. Bastava uma tosse e ele me convocava para visitas pessoalmente no apartamento do tio. O rapaz insistia para que, sempre, em qualquer situação, internássemos o paciente na UTI. A orientação era sempre enfática: “Meu tio não tem preço”. Até que o senhor morreu. Abriram o testamento dele e entendi. Ele havia condicionado a herança ao sobrinho, desde que vivesse 15 anos após o diagnóstico do Alzheimer. Os cuidados com a saúde eram uma condição da herança.

Como é ver a morte tão de perto?

Nem sempre a morte acontece de um segundo para outro. Em geral, a pessoa vai morrendo. Às vezes, você torce para a morte chegar. Tem gente que vai deixando a vida aos poucos e fica aliviado. Imagine uma metástase de um câncer que quebra todos os ossos, deixa a pessoa mole, como uma lesma, com dor a cada movimento. Existem situações em que a morte é um grande e doce alívio.

São comuns as tentativas de se matar numa UTI?

Quando um paciente está desesperado, amarramos seus braços. É um procedimento usado para controlar aqueles que ficam agitados e que correm o risco de arrancar tubos e aparelhos que os mantêm vivos. No desespero, a pessoa pode arrancar o tubo e morrer. Na UTI é preciso sedar, conter esse impulso. A vida na UTI é muito dura.

Você acredita em Deus?

Eu não sou um sujeito místico, nem religioso. Mas algumas vezes, acontecem coisas que fogem do meu entendimento, não encontro explicação.

A religião, a fé, elas ajudam na recuperação?

Confesso que já vi muita gente que por todos os indicadores e índices já estaria morta e acaba sobrevivendo. Ainda que eu tenha me tornado cético quanto a milagres, acredito na força do pensamento e na crença das pessoas – a fé move montanhas, mesmo.

Vocês encorajam a presença de religiosos?

Sempre incentivamos. Padres, pastores, rabinos, muçulmanos, já fiz sólidas amizades com gente de todos os credos. O mais interessante é que para mim todos parecem ter a mesma religião, sem divergências ou discrepâncias, pois trazem sempre a mesma mensagem de paz e harmonia. A combinação de recursos modernos com a fé do paciente e da família ajuda.

Consta que você, que é judeu, vivenciou uma surpreendente história sobre o tratamento de um paciente que havia sido um oficial nazista.

Pois é. Esse cara só me chamava de pedreiro. Era um touro, quase dois metros de altura, passava estreito pelo batente das portas. Só depois de mais de 15 anos de contato, descobri que foi nazista. Eu primeiro tratei da mulher dele, que também tinha arritmia. Depois, foi a vez dele. Nos tornamos amigos e semanalmente nos víamos na academia de natação onde ele era o proprietário. Só eu conseguia tratar desse cara, sujeito difícil, furioso, agressivo, que bebia muito. A mulher me ligava para socorrê-lo em casa e controlá-lo quando estava embriagado, agitado e com palpitações. Foi numa dessas ocasiões que seu quimono abriu-se espontaneamente e pude ver uma corrente com uma enorme medalha com a cruz suástica e medalhas de condecorações nazistas. Fiquei perplexo, me senti um idiota, um imbecil.

Qual foi a lição que você tirou dessa história?

Foi quando, depois de tudo, a mulher dele me disse: “Ao lado de todo nazista, sempre existe um judeu em quem ele aparentemente confia, em quem deposita muitos segredos.”

É uma ironia histórica.

É uma ironia histórica. Depois de saber que ele era nazista, decidi afastar-me de meu paciente. Orientei a esposa sobre como proceder em caso de embriaguez e agitação e como encaminhá-lo a um hospital. Mas lá estava eu, um mês depois, num hospital judaico, internando um simpatizante nazista em minha UTI. Não fui o amigo de sempre, apenas o médico. Depois, fui com a mulher até um outro hospital que o socorreu numa situação urgente. Ele estava lá, estendido na mesa de óbitos. Ao seu lado, o corpo de um negro e o cadáver de um homem branco desdentado. Diante da morte, todos são iguais. Na horizontal, todos se nivelam.

Como assim?

Isso mesmo. Nazistas ou não, na horizontal todos se nivelam. A morte é igual para todos, ricos, pobres… Conheci um médico obcecado por dinheiro. Ele sempre se espelhava: “Orra, eu trabalho tanto e não ganho como ele!” Um dia, perguntei: “Você gostaria de ser um Klabin?” Ele respondeu: “Claro que sim, família milionária!”. Puxei o médico pelo braço e fui até a UTI. “Esse senhor está em choque cardiogênico, tem risco de morrer. Queria ser Klabin? O cara tem milhões e milhões de dólares e não há o que ser feito.”

Então é isso, na horizontal todos se nivelam…

E digo mais, acredito que a vida nos ensina em vida, sabe? E a gente aprende. Você faz e recebe… Uma pessoa correta pode não ter os benefícios do mensalão ou de falcatruas, mas… Conheço gente que faz questão de mostrar e demonstrar uma postura de superioridade – indivíduos ricos, uns com riqueza duvidosa, outros não, e que, às vezes, têm uma postura rancorosa, uma visão bitolada da vida. Um dia, cada um terá o seu tropeço. Todos nós teremos. Eu, você, todo mundo tropeça. E aí todos deitam. E aí todos se nivelam na horizontal, todos perdem o controle de si. Já vi muitos truculentos que viraram coelhinhos mansinhos. A vida ensina em vida…

O que é o seu dia-a-dia?
Tenho horários, acordo muito cedo. Meu problema, sério, é que eu sou um verdadeiro dependente, não consigo parar e descansar.

Tem insônia?
Sempre tive. É muita coisa na cabeça. Tenho dificuldade para chegar ao meio-termo. Mas falo para todo mundo que eu vivo um cenário praticamente perfeito. Mês que vem faço 62 anos e tenho os pais vivos. Sou casado, muito bem casado. Dois filhos maravilhosos e muito bem casados também. Tenho seis netos. Eu me dou bem com a família dos meus filhos. São essas as coisas que importam.

E pesadelos?

Não me esqueço, aconteceu há um ano e meio de chegar uma criança de 2 anos na UTI pediátrica. Tinha sofrido queimaduras terríveis. Tenho netos nessa idade, não quis ir ver essa criança. Ela acabou se salvando, começou a andar no corredor. Não teve jeito, um dia vi a mãe com a menina no colo. De longe, o chapeuzinho na criança. De perto, foi um choque tremendo, uma das coisas mais terríveis da vida. A menina sem as mãos, sem um fio de cabelo, sem orelhas… e aquela mãe sorrindo. Aquilo ficou na minha cabeça, não saía mesmo. Dois dias depois disso, chamei a mãe para conversar na minha sala. Ela me passou uma grande lição de moral. Eu disse à mãe, “conta, o que você me diz da sua vida, da sua filha”. E ela me respondeu: “ela está viva, doutor, e sou a mãe mais feliz do mundo”. Foi uma choradeira só. Eu não agüentei. E até hoje isso não sai da minha cabeça. Em medicina, há muito do inesperado também. Isso tira o sono. Já acordei no meio da noite, sobressaltado, às vezes são “micro-acordadas”. Mas tem uma fase em que a gente não dorme quase. Nada muito poético, mas tem coisas bonitas também.

Qual é sua preocupação atual?

Minha preocupação agora – tenho até vergonha de dizer – é que vou para um congresso em Amsterdã e depois vou ficar uma semana na região da Toscana. Não sei se vou agüentar. É curioso, mas as preocupações também ficaram crônicas para mim. Se não tem, a gente arranja, né? Mas isso depende muito da personalidade. No meu dia-a-dia, faço meus exercícios, minha ginástica, gosto de ler livros, adoro literatura. E cuido da minha chácara. Sempre tenho dias repletos. Nem me lembro a última vez que fui ao cinema, acho que vou uma vez por ano.

Você é muito estressado?

Sou estressado? Sou. Sou angustiado? Sou. E perfeccionista. Se tudo não ocorre do jeito que imagino, isso me dói muito. Nem sempre demonstro. Mas é um tipo de personalidade, para mim é assim: o paciente não vai bem e fico mal. Mesmo.

Já chorou?

Ah, sempre. Até na frente do paciente, da família. Cada história de pacientes que me deixaram, sabe? (olhos vermelhos, voz ligeiramente embargada) Meu círculo de amizade são meus pacientes. Já tive, modestamente, participação na sobrevida de pessoas.

O que você pensa sobre a eutanásia?

Nunca me esqueço de uma senhora de 70 e poucos anos, que estava muito doente, com vários órgãos comprometidos. Algumas pessoas falavam assim: “Se ela melhorar, que bom. Se ela morrer, excelente”. Essa mulher tinha sido amputada. Primeiro a mão, depois o pé. As pessoas vinham me falar em eutanásia, em direito de morrer. Um dia na semi-intensiva, fui falar com essa senhora. Ela disse: “Doutor, o senhor pode me examinar e conversar depois? Hoje é o último capítulo da novela, não posso perder!” Então, eu pergunto, será que ela queria morrer? Se a novela era importante para ela naquela altura da vida, como questionar se a vida não estava valendo a pena? Você não pode botar a sua cabeça na do paciente.

E se o paciente manifestar lucidamente sua vontade de morrer?

Recentemente chegou à UTI um paciente de 90 e poucos anos com problema de pulmão. Quando ele acordava, me dizia: “Barbaridade o que vocês estão fazendo comigo, isso é uma falta de respeito!” A família quis fazer tudo por ele. A questão é a seguinte: esse senhor, se saísse da UTI, com sorte teria de continuar fazendo diálise e manifestou que isso comprometeria sua qualidade de vida. A família optou, então, para que não tomássemos qualquer atitude extra. O paciente fica sedado, sem dor, e não adotamos procedimentos extras. Praticamos eutanásia? Não. Isso é o que se chama ortotanásia. Com uma leve arritmia, ele se foi.

Em linhas gerais, como é o seu critério?

Cada caso é mesmo um caso. O que é qualidade de vida para você não é para o outro. Há aquela mulher, amputada, que tinha um prazer enorme de assistir à novela. Há o religioso, que acha que esse é o destino que Deus deu a ele. Não dá para entrar na cabeça das pessoas. Nós temos que oferecer todos os recursos que a medicina propicia ao paciente, sempre atentando para dois aspectos: preservar a dignidade e evitar, a todo custo, o sofrimento. É preciso ter em mente, porém, o resultado final do tratamento. A qualidade de vida é o fator fundamental na tomada de decisão de qualquer tratamento.

Entre o paciente, o familiar e o profissional de saúde, quem é o mais estressado?

O paciente, quando está naquele ambiente, tem alguns fatores estressores. Por exemplo: o problema da luz na cara dele à noite e a possibilidade de não conseguir dormir direito, o medo de ter o tubo na garganta. Mas a característica estressora que mais chama a atenção é a perda de seu próprio controle. Ele já não é dono de si, alguém manda nele. O que procuramos fazer é colocá-lo na participação das decisões. O paciente tem o direito de ser informado, sobre o ultra-som, sobre a cirurgia que vai acontecer. A família quer a informação clara, quer saber dos detalhes, se vai doer. São estresses diferentes. Mas o que mais sofre de estresse é o médico, o profissional de saúde. Está cientificamente comprovado.

Por que?

Quem acha que o estressor é menos importante é o paciente. Quem acha que o estressor é mais importante é o profissional. Eu, profissional, acho que a luz está incomodando muito, a família acha mais ou menos e o paciente menos ainda. O paciente é o que menos reage aos fatos que causam estresse. Eu, médico, acho que ele está sentindo muita dor. Ele está sentindo dor, mas é menos do que eu acho. O médico considera o fator estressor mais intenso que o próprio paciente.

O que vem a ser o conceito de humanização da UTI?

A humanização do relacionamento na dor é o fundamental e isso inclui o relacionamento com o paciente e também com os profissionais que lá trabalham. O estresse do médico, do enfermeiro é muito, muito grande. Nas devidas limitações, que não são tão grandes, posso dizer que trabalho com a melhor tecnologia do mundo. É uma realização. O que muda no Einstein é maneira de abordar o paciente. A grande virtude é a nossa cultura latina. Tem uma temperatura. O ponto de diferenciação está aí. Qual é a UTI americana que tem psicólogo? Somos pioneiros nisso no mundo.

Quais as grandes mudanças?

Antigamente, na UTI ninguém entrava. Só com roupa protetora, uniforme até o pé. Visita? Não, só muito de vez em quando. Dor? “Ah, espera um pouco que passa!” Informação para a família? Nada, não se dava informação. Falo com orgulho que o Einstein foi pioneiro a abrir a UTI para a família e deixar o público entrar. Abrir a UTI teve duas conseqüências. Visitas desejáveis davam bom resultado ao paciente. Outras, nem tão desejáveis, causavam distúrbios. Mas o mais complicado era o familiar tomar contato com o paciente com um tubo na cabeça, um tubo no tórax, um tubo na garganta, tubo para lá e pra cá. Os parentes ficavam chocados, tinham reações como choro e taquicardia. Eles olhavam o paciente e imaginavam o que ele estava sentindo. Por isso digo sempre: o que os olhos do familiar vêem não é o que o coração do paciente sente.

Como assim?

É realmente impossível se colocar no lugar do doente. O paciente na UTI está sob efeito de sedativos e analgésicos que atuam no sistema nervoso central. O acompanhante, familiar ou profissional, estressa porque estão com as emoções à flor da pele ou em estado de sensibilidade anormal. Quem está sedado e sob efeito de analgésico é diferente. Em geral, o paciente nem está dando bola para a dor que a família acha que ele está sentindo.

Você tem medo da morte?

O escritor Gabriel Garcia Márquez fala sobre uma coisa interessante em seu “Memórias de Minhas Putas Tristes”. A gente se considera igual por muitos anos, não nos chama a atenção a passagem do tempo. São as pessoas que percebem nossas rugas e os cabelos grisalhos. E o tempo vai passando. Numa época da vida você é sozinho, depois constitui família, um grupo de amigos e pessoas que são ligadas a você. E à medida que o tempo passa, a gente se conscientiza disto: da nossa grande vulnerabilidade. Por outro lado, a expectativa de vida aumentou muito nos últimos anos. A média de vida do brasileiro na década de 1920 era de 30 e poucos anos. Hoje é 72 anos; daqui a uma década, será de 80. Eu já tive problemas de saúde, sei que daqui a um tempo terei mais. Você vê que é vulnerável. Hoje eu tenho medo, não no sentido de pavor. Vejo pessoas que eram super-homens e se foram. E agora não sou só eu, vem comigo mulher, filhos. E os problemas vão sempre aumentando.

Saúde em primeiro lugar. Qual seria a segunda coisa mais importante da vida?

O amor. O amor em seu sentido mais pleno possível.

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