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Uma visita a terra dos cripto-judeus em Portugal

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Desde há muito queria conhecer um pouco mais de perto a tão falada sociedade secreta de Belmonte, em Portugal. Foi após uma reportagem na TV portuguesa que assisti em Lisboa, há mais de 10 anos, e através dos artigos e livros da querida Anita Novinsky, vi está curiosidade poder ser concretizada.

Logo depois de minhas palestras no Congresso Europeu de Medicina Intensiva realizado em 2008 em Lisboa eu e minha mulher Betty fomos em direção daquela cidade da Beira-Baixa, no norte de Portugal. A cidade de Belmonte é reconhecida como um marco importante na historia dos judeus que viveram na península Ibérica. Este reconhecimento se deve a um engenheiro metalúrgico, judeu e polonês, Samuel Schwarz que em 1917 foi para lá a trabalho e descobriu, após incessantes e curiosas investigações, que naquela região existia uma comunidade secreta que conservava certos costumes como acender velas no jantar da família as sextas feiras e jejuar uma vez por ano. Eram os marranos de Belmonte que ainda viviam como uma comunidade fechada. Mesmo com o fim da Inquisição (1536 a 1821), não sabiam que era o judaísmo a religião que seguiam e que era praticada em segredo, sem sacerdotes ou livros, e transmitida de geração em geração por via oral.

Em 1925 Samuel Schwarz encontra numa antiga sinagoga da região de Belmonte, uma pedra com inscrição de um versículo bíblico que corresponde a data de 1297 e publica o livro: “Os cristão-novos em Portugal no século XX” que teve uma versão em inglês, sendo assim divulgada para o mundo afora

No caminho para a tão aguardada Belmonte tivemos a primeira surpresa quando nos deparamos com uma cidade chamada Tomar. A visita a essa cidade não estava inicialmente planejada mas aproveitamos o momento para conhecê-la, pois sabíamos da existência de um monumento, tombado pela UNESCO, o Convento dos Templários. Caminhando pelas ruelas desta pequena cidade, para nossa surpresa vimos uma placa indicando à direção de uma sinagoga e atraídos pela inesperada curiosidade para lá nos dirigimos. Uma pequena casa utilizada até pouco tempo para fins comerciais, constituía a sinagoga de Tomar, provavelmente o mais antigo templo judaico de estilo gótico de Portugal . Foi uma sensação agradável acompanhada de uma enorme emoção, visitar este templo,que foi adquirido e recuperado pelo mesmo engenheiro Samuel Schwarz. Um ambiente pequeno e discreto onde se destacavam quatro colunas, que representavam uma homenagem às quatro matriarcas de Israel: Sara, Rebeca, Raquel e Lia.

foto1-Tomar

Alguns poucos turistas ouviam as ensaiadas explicações dadas por uma jovem que, aparentemente nada tinha a ver com o significado daquela antiga sinagoga Logo depois desta interessante visita continuamos nosso percurso para Belmonte e nos hospedamos numa pitoresca pousada situada nos altos de uma montanha, de onde se podia avistar toda região da Serra da Estrela.

Chegamos bem ao entardecer e o pôr-do-sol visto da varanda de nosso quarto era esplendido. De lá também podíamos observar uma pequena cidade iluminada chamada Covilhã, que tem um significado especial na história do cripto-judeus daquela região. No dia seguinte visitamos as ruelas da judiaria de Belmonte e nos dirigimos a sinagoga Beit Eliahu onde encontramos o Sr. Henriques. Este senhor de meia idade contou-nos que sua família era tradicional de Belmonte, desde os tempos da idade média. A antiga residência da família ficava bem em frente à sinagoga… Cruzamos a pacata ruela, de onde se podia observar o quintal desta pequena casa e tive naquele momento a sensação de ter voltado no tempo, para os idos do século XVI e estar observando os fiscais da inquisição fazendo a habitual inspeção, se os judeus convertidos, os cristãos novos, ainda continuavam a praticar a sua “antiga” fé o que era motivo de severa punição. Ficavam satisfeitos ao verem embutidos pendurados em varais nos pátios, que significava que os habitantes desta casa consumiam carne de porco. Mas os marranos na verdade utilizavam embutidos que continham outros produtos, que hoje são conhecidos como alheiras. Retornando a sinagoga continuamos a conversar com o Sr. Henriques e soubemos que em Belmonte existe uma população, que se considera de origem judaica, de aproximadamente 120 pessoas. Eles costumam comparecer a sinagoga apenas nas grandes festas, quando é contratado um rabino que geralmente vem da cidade do Porto. É uma bonita sinagoga, com a capacidade aproximada para 100 pessoas.

foto2-Sinagoga

Bem próximo a este local visitamos o mausoléu da família Cabral, com destaque ao descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral, que com grande probabilidade era um cristão-novo, assim como seu genro Fernando de Noronha. A poucos quarteirões estava localizado o Museu Judaico de Belmonte, que nos impressionou pela lista de pessoas afixadas numa imensa parede e que foram vitimas fatais da inquisição. Nomes mais variados, que se confundiam com os conhecidos e tradicionais de famílias portuguesas e brasileiras, lá estavam relacionados: Azevedos, Pereiras, Mendes, Rodrigues, Soares, Silva e tantos outros, de todas as idades, foram sacrificados pela intolerância e ignorância.

foto3-Vitimas

Destaca-se neste museu o nome de Artur Carlos de Barros Basto, um capitão do exercito português que posteriormente se autodenominou de Ben-Rosh. A partir da cidade do Porto, Barros Basto lutou incessantemente para resgatar ao judaísmo normativo os marranos que então viviam na região de Trás-os-Montes e da Beira Interior. Ficou conhecido como Apóstolo dos Marranos e, infelizmente, ainda não recebeu o justo reconhecimento e valor pela sua luta em prol dos cripto-judeus de Portugal.

Muito próximo a Belmonte passamos por uma cidadezinha denominada Mantegas, onde também existem documentos comprovando a presença dos cripto-judeus, e logo depois percorremos a bela Serra da Estrela, onde nos deliciamos com imagens de paisagens e natureza magníficas. No final desta Serra, retornando para Belmonte, passamos por Covilhã. Nesta cidade e região existiu uma comunidade constituída por judeus comerciantes e mercadores, que tiveram grande sucesso econômico e que preservavam, com rigor, a religião e costumes judaicos. Dentre estes se destacavam as famílias com o sobrenome Sousa (com “s” e não “z”), todos de origem judaica. Foi de Covilhã a origem daquele que foi o primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Sousa, um judeu praticante.

Deixamos Belmonte e passamos ao lado de Guarda , uma cidade rica em história judaica onde existe uma judiaria muito conhecida. Fomos para Ciudad Rodrigo, situada na Espanha, muito próximo a fronteira com Portugal. Encontram-se vestigios da presença judaica nesta região, que foi trajeto comum para a retirada dos judeus expulsos pelos reis católicos Fernando e Isabel em 1492, logo após a reconquista de Granada. Contam os historiadores que os judeus nesta retirada armavam tendas neste vale, junto a Ciudad Rodrigo, tendo muitos adotado o sobrenome Valle por este motivo .Bem próximo estava um vilarejo na Serra de França , denominado La Alberca , com uma arquitetura peculiar e que foi refugio de judeus e mouros, e que tornaram o local com uma característica histórica e cultural peculiares.

foto4-Ruela

De lá visitamos Salamanca, com sua esplendida universidade e Cáceres, onde a exemplo de outras cidades, encontramos ruas onde viveram os judeus antes de sua expulsão da Espanha. Retornando novamente para Portugal passamos junto à cidade de Valência de Alcântara, onde também existe resquícios de uma sinagoga de estilo gótico semelhante a de Tomar. Já em Portugal, ficamos hospedados em Marvão, uma minúscula cidade com casinhas brancas no topo de uma montanha, de onde se tem a visão de uma paisagem linda e inusitada, podendo se avistar toda região. No meio do caminho em direção a Évora nos deparamos com a cidade Castelo de Vide. Confesso que não conhecia nem de nome esta cidade e a surpresa foi enorme quando nos deparamos, junto ao centro desta cidadela, com uma judiaria constituída de ruelas íngremes e acentuados aclives e declives, caracterizando provavelmente, uma parte da cidade que talvez não fosse melhor para se habitar. No meio de todas estas pequenas ruelas nos deparamos com uma casa de esquina que era a antiga sinagoga local. Estava fechada e apesar de constar no guia turístico da cidade, infelizmente a longo tempo não estava aberta à visitação, dando uma sensação de abandono. De Évora voltamos para Lisboa onde fizemos inúmeros passeios. Passamos de fronte a antiga sinagoga desta cidade, que ficava nos fundos de um terreno e que era separada da rua por uma grade. Soubemos que na idade média não era permitida a outras religiões que não a católica, a construção de templos voltados diretamente para as vias públicas. Bem próximo a esta sinagoga nos defrontamos com a Praça Marquês de Pombal, homenagem ao ministro que apenas em 1821 decretou o fim da inquisição em Portugal. Quando passeávamos por uma das principais praças do centro de Lisboa, a do Rossio, lembrei-me da citação de uma das maiores tragédias ocorridas com os cristãos-novos numa igreja lá situada, no ano de 1506. Um suposto milagre atraiu milhares de cristãos para esta igreja. Porém um cristão-novo teve a infelicidade de tentar explicar o fenômeno do milagre como sendo algo natural e que não havia nada de sobrenatural. Isto desencadeou uma matança em 19 de Abril de 1506 comandada por frades, com a participação de um povo ignorante e que transformou a região do Rossio em um verdadeiro dilúvio de sangue.

Bem próximo ao Rossio, passando pela Rua da Prata, chegamos à beira do Rio Tejo. Este local foi palco de um dos acontecimentos mais inusitados que ocorreram por ocasião da expulsão dos judeus de Portugal.

No fim de 1496, logo depois da assinatura do tratado de matrimônio entre D. Manuel e Isabel, filha dos reis católicos de Espanha, é decretada a expulsão aos que não se convertessem ao cristianismo e em seguida são fechadas todas as sinagogas de Portugal.

Esta expulsão, que havia até então, sido evitada por D.Manuel pois representaria um baque econômico e intelectual a Portugal, acabou sendo decretada. Porem, enquanto os últimos judeus resistentes aguardavam o embarque – uns 20mil – foram batizados a força e declarados cristãos súditos da igreja. E os judeus “ficaram a ver navios”, e não embarcaram.

Mas no decorrer do tempo, as rivalidades econômicas acabaram escolhendo as questões religiosas como bode expiatório: o ódio ao judeu transferia-se para o cristão- novo

Durante esta viagem, sempre que visitávamos estes locais históricos éramos respaldados por informações obtidas em livros de historiadores o que a tornou ainda mais interessante e muito emocionante. Uma verdadeira saga e luta pela vida e sobrevida, que mais uma vez ocorreu na história com o povo judeu

Como é possível viver, geração após geração, sob o constrangimento, perseguição e intolerância, sem que este chegue a destruir o ser humano?

Como foi possível viver duas existências de características opostas uma pública como cristão e outra privada como judeu, ou seja, como se pode ser cristão por fora e judeu por dentro? Aqueles que persistiam na sua antiga religião judaica foram presos, castigados com dureza, torturados ou queimados. É o homem dividido, denominação frequentemente usada por Anita Novinsky em suas publicações, que teve de desenvolver uma habilidade de transparecer de maneira diferente conforme o local onde se encontrava.

São questões fundamentais que se relacionam com a comunidade cripto-judia que existiu nos séculos passados em Portugal e Espanha. O não conformismo religioso dotou os cristãos–novos portugueses de um comportamento peculiar: publicamente comportavam-se de uma maneira cristã, mas em sua casa com seus familiares, assumiam uma conduta diferente.

Apesar de todas as lições do passado, parece que o ser humano não aprendeu o suficiente e a perseguição, a intolerância e enfim a ignorância continuam a acontecer.

Os pogroms, holocausto, inquisição e todas as tentativas de disseminar o ódio e de aniquilar o povo judeu foram em vão. Quando um povo mantém com convicção a sua cultura, assim como os seus verdadeiros princípios e valores, nenhuma arma será suficientemente potente para destruí-lo.

Elias Knobel
Médico-Cardiologista.
Diretor Emérito e Fundador do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein

Referencias:
Anita Novinsky . A inquisição . Ed Brasiliense, 2007.
David Augusto Canelo – Os últimos cripto judeus em Portugal , 3ª ed, 2005 , patrocinado pela Câmara Municipal de Belmonte

Comentários (3)

 

  1. sheila wadih sassine disse:

    simplesmente espetacular ler sobre esta cultura que o sr e sra Betty nos passam aqui, feliz 2011 a todos, todos os santos dias. Sheila Wadih Sassine

  2. [...] Leia esse incrível relato na íntegra no Blog. Clique aqui. [...]

  3. Luciano M. Eskenassis disse:

    Caro Dr. Elias,
    Muito emocionante seu relato. Sugiro que crie uma página no Facebook onde muitas pessoas poderão partilhar da mesma alegria que tive ao ler esse artigo.

    Shalom,
    Dr.Luciano M. Eskenassis
    Médico CREMERJ 5245357-6

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