Mensagem dia dos pais

Prezados amigos,pais_1

Presto aqui uma homenagem a todos os pais. Transcrevo o capitulo de meu livro “Vivencias e confidencias”: “Querido pai eu já sabia….” E faço uma homenagem a memória de meu querido e saudoso pai, que esta mais vivo do que nunca em nossos corações e que deixa muitas saudades.

Neste momento, querido pai, retorno de sua última viagem para o jazigo onde você foi sepultado para a eternidade ao lado de minha mãe. Nada mais previsível: isso iria algum dia ocorrer. Se acontece a todos, por que não iria ocorrer a meu pai? Afinal de contas, a vida é constituída de um ciclo, tal como uma peça de teatro. O nascimento é seguido da plenitude da vida em que tudo acontece com maior ou menor vibração e entusiasmo. A despedida, porém, é o gran finale e na sua essência nada mais é que um dos seus mais destacados e esperados atos.
Isso, meu pai, eu já sabia.
Eu também sabia que você teve uma vida intensa, cheia de oscilações e percalços, mas que no cômputo geral, posso dizer, foi muito bem vivida. Você foi um homem bom, batalhador, simples e humilde, tendo só arregimentado amigos. Nunca conheci um inimigo seu. Por outro lado, o patrimônio que você amealhou durante quase cem anos de vida foi incalculável. Não em termos pecuniários, isso nunca. Você sempre teve uma vida discreta e poupou tudo o que auferia na luta diuturna em prol do futuro dos seus filhos. Quem diria, meu pai, que você nunca teve um carro… Mas em termos de estrutura e constituição familiar sua riqueza foi imensa e muito maior do que a dos maiores milionários.
Eu também sabia que em certo dia você seria vítima das vicissitudes da vida. Se doenças e enfermidades acontecem a outros, por que não iriam acometer com você? E isso acabou acontecendo. Naquele Carnaval de 2007 você entrou na UTI, aquela mesma cujo nascimento você acompanhou . Aquela que lutei para tornar reconhecida em todo o mundo. Lembro-me como se fosse hoje da minha angústia e desespero com o seu quadro clínico. A situação era crítica, as chances eram mínimas e você acabou recebendo um tratamento de suporte e paliativo. Mas a sua teimosia e insistência pela vida foram notórias. Enquanto eu rascunhava o seu necrológio, parecia que, quanto mais quebrava a cabeça para encontrar as palavras certas e apropriadas para o terrível momento, você, contrariando as piores expectativas, renascia das cinzas. Você não sucumbiu. Eu já há muito sabia que você era uma fortaleza. Um lutador e vencedor de batalhas, aparentemente invencíveis.
Mas a luta apenas começara. As intervenções terapêuticas, o uso irrestrito da mais moderna tecnologia propiciaram a você continuar a sua missão neste mundo. Um tubo no seu estômago para alimentação, outro no pescoço para respiração, um cateter de soro para infusão, e assim os tempos foram passando e você vivendo no residencial ao lado de mamãe, que também era afetada pela ocorrência irreconciliável das enfermidades e pela avançada idade.
Com o tempo, porém, o principal atributo de um ser humano passou a faltar. A queda progressiva da consciência foi marcante. A falta de contato e do reconhecimento das pessoas, mesmo daqueles a quem você tanto amava, começou a ser um fato consumado. Isso eu também sabia que poderia acontecer, mas não deixou de ser um forte impacto quando essa inevitável morbidade tocou a nossa família bem de perto. A angústia tomou conta de todos nós, e a perspectiva do não retorno às condições prévias passou a nos afligir cada vez mais. Doenças, complicações terapêuticas de todos os tipos e sem restrição passaram a fazer parte do seu dia a dia. E a sua deficiência de cognição foi progredindo de tal forma que, a partir de certa época, você passou a viver num mundo diverso do nosso. E sem chance de retorno.
É claro que tudo isso eu sabia. Depois de ver tantos pacientes graves e idosos, por que seria meu pai poupado dessa desgraça? Uma condição sem volta, um caminho árido a ser percorrido e pavimentado de tristeza, angústia e sensação de impotência. Terrível depressão me invadia após visitá-lo: O que fazer? Como fazer?”. Você que sempre atribuía à minha capacidade médica a melhora daqueles pacientes seus conhecidos, frequentemente dizia: “Você vai resolver todos os nossos problemas, não tenho o menor receio de ficar doente…”. E eu me portava apenas como um mero espectador de um jogo do qual seguramente não sairia vencedor. Quanto tempo isso iria durar? Por que um homem bom teria de batalhar tanto por uma vida que eu questionava se valia a pena ser mantida? E a pergunta “O que fazer? Como fazer?” voltava à minha mente.
E assim um dia após o outro, uma semana após a outra, a história que eu havia presenciado com outros acontecia comigo. Um abalo, um trauma, um tsunami em minha alma, com noites maldormidas e a decepção com os desígnios perpetrados pela vida. Um sofrimento tenebroso para quem vê, vive e sente o drama de um pai moribundo. Era como percorrer um caminho numa floresta escura, sem nenhuma orientação ou trilha para chegar em algum lugar. Uma perdição total, sem a mínima chance de encontrar uma luz no fim do túnel, em busca de uma solução que justificasse a manutenção de uma vida que fosse digna de ser vivida.
Isso, meu pai, eu não sabia. Eu poderia até imaginar, poderia até fazer os cálculos mais precisos do prognóstico do que iria acontecer a um idoso enfermo, exatamente como ocorria a muitos daqueles que acompanhei em tantos anos de profissão. Mas vestir a carapuça foi diferente e bastante doloroso. A razão e o raciocínio foram substituídos pela emoção e pelo sentimento daquilo que acontece no âmago de nossos corações.
Isso, meu pai, eu não sabia.
Confesso que em prol da humanização da vida, que tanto apregoo, muitas vezes torcia para que você descansasse. O sofrimento de quem o via talvez fosse maior do que o seu próprio – que estava sempre e rigorosamente bem sedado. Apesar de saber que “aquilo que os nossos olhos veem não é o que o coração do paciente sente”, não abria mão do maior controle em relação aos cuidados paliativos para um ser humano que, no caso, era meu pai.
Os ensaios para a despedida passaram a ser mais frequentes. Mas você não queria partir. Um cuidador até me disse que algo o prendia a este mundo e não permitia a sua despedida. Espantoso? Diferente dos outros casos? Talvez uma repetição das cenas da vida que vivencio no dia a dia. Para mim, porém, era inédito.
E isso, meu querido pai, eu não sabia.
Em apenas um ano e meio perdi os meus pais. Nada mais natural, nessas circunstâncias e faixa etária, eu mesmo teria dito a outros. Quem teve a oportunidade de conviver com os pais mais de 2/3 de uma vida? Quantos indivíduos na terceira idade tiveram a dádiva de ter os pais vivos por mais de 90 anos?
Uma bênção divina, um privilégio de poucos. Talvez eu fosse daqueles que inconscientemente acreditassem que seus pais seriam eternos. Acho que tive esse comportamento durante toda a vida. Aos poucos e de forma muito dolorosa, percebi e senti, no fundo da alma, que isso não era verdade. Mais um aprendizado, mais um ensinamento para esse ser que vive ensinando os outros.
Meu querido pai, na verdade, como já disse, durante muito tempo almejei a sua despedida. Como um ato de amor, como um respeito ao ser humano que você sempre foi, como um preceito de piedade e valorização da nossa moral neste mundo tão tumultuado. Queria isso, sim, confesso. Mas quando a realidade veio à tona, mais uma vez, perdi a minha base emocional de sustentação.
Você, meu pai, mesmo doente, mesmo inativo e imobilizado em todos os sentidos, estava respirando. Seu coração palpitava e por vezes você manifestava sentir alguma dor. Você estava vivo. Você, a sua presença, a sua existência representavam aquela estrutura invisível tal como a base de sustentação de um grande edifício que externamente não é percebida. Uma base sólida e ampla de um enorme iceberg. Em qualquer momento de dificuldade enfrentada por nossa família, eu imaginava qual seria a sua atitude, sempre tão ponderada e equilibrada, virtude dos sábios e bem vividos.
Mais uma vez sinto a sua importância e sua falta. Agora você usufrui do repouso dos justos e vitoriosos. Sem sofrimentos, sem sondas, sem tubos, sem sedação, sem as parafernálias tecnológicas modernas que o cercaram e garantiram uma vida, que questiono – com todo respeito que tenho por ela – se vale a pena ser vivida.
Agora a fila andou, e eu, como filho mais velho, assumi a ponta em nossa família. Ela continuará andando, pois essa é a regra do jogo da vida.
Sinto-me um órfão em plena terceira idade. A angústia e a sensação de perda são imensas e dominam com uma intensidade difícil de descrever.
E isso, meu querido pai, eu não sabia.

—- Vivências e Confidências, disponível em todas as livrarias.

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3 Resultados

  1. Rosan disse:

    Dr Elias , bom dia
    Feliz dia dos pais
    Lindo texto , parabéns

  2. Henrique grinkraut disse:

    Relato humano.comovente e acima de tudo realista.Obrigado pela mensagem

  3. Angela Zimbardi disse:

    Dr.Knobel ,
    Felizes são os homens que conseguem construir uma história , digna de ser lida e contada . O Sr é um destes dignos , mesmo com todo o sofrimento contido dentro de uma UTI , onde segundos fazem a diferença , sempre houve para com todos uma palavra doce e um conforto único ímpar de homens brilhantes e sensíveis . Parabéns pela história de vida e pela tragetoria profissional .

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