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Dr. Elias Knobel vence concurso de crônicas da AMB

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A Associação Médica Brasileira (AMB) lançou recentemente um concurso de contos e crônicas para médicos de todo o Brasil. O Dr. Elias Knobel foi o vencedor do concurso com a crônica entitulada “Confidências à Mafalda”.

Leia abaixo a crônica na íntegra!

EK+ Mafalda auscultando

(Dr. Elias e Mafalda)

Confidências à Mafalda

Mafalda, há quanto tempo você me acompanha, ouvindo minhas preocupações, alegrias e ansiedades? Quantos segredos contados, confissões expostas. Até lágrimas já compartilhei. Sem contar as histórias de vidas passadas aqui na UTI que dividi com você.

Lembra-se de Tony, aquele rapaz de boa aparência que se internou aqui sem diagnóstico? Como foi difícil contar a família que o jovem saudável tinha AIDS. Recordo como se fosse hoje: a família a contestar o resultado dos exames, a dizer que havia algo errado, não se conformaram e queriam que o filho morresse. Quantas vezes entrei em minha sala e recuperei a calma, desabafando-me com você.

Também não sai da minha cabeça aquela linda menina que chegou à UTI pediátrica com 50% de seu corpo queimado. Apesar de acostumado com casos graves, fiquei extremamente abalado ao ver a criança desfigurada, brincado como se nada tivesse acontecido. Mais emocionante foi ouvir de sua mãe, uma mulher de força incomparável e abnegação sem igual, que ela estava feliz por ver a filha viva e que tudo daria certo. Uma fé que emociona e que toca fundo na gente. E você ouviu tudo. Ficou ali, passiva, tranqüila, enquanto eu tentava, a duras penas, afogar a emoção diante de uma situação tão difícil.

Parceria e confiança são palavras que se aplicam bem ao nosso dia a dia de alegrias e tristezas vividos juntos na UTI. É bom ter alguém para dividir a alma, sem ter medo de ser julgado, criticado ou mal entendido. Você faz há anos esse importante papel, sem pedir nada em troca. Mantendo-se calada à frente de meus pensamentos e opiniões. Funcionando como um alterego.

Lembro bem da primeira vez que a vi sentada junto ao leito de Carlos, velando seu sono. Há cerca de 10 anos, um grave acidente ocorrido numa estrada de Mato Grosso trouxe Carlos, em estado de coma, para nossa UTI. Era um homem alto de boa aparência, com pouco mais de 40 anos. Assim que ele chegou à UTI, seu nome me chamou a atenção. Soava conhecido. Puxei pela memória e, claro, lembrei-me de já ter encontrado com o publicitário de sucesso em alguns eventos sociais.

O caso era grave. Carlos tinha muitas fraturas, mas o que mais nos afligia era um sério traumatismo craniano e de tórax. Em pouco tempo além dos cuidados com Carlos nossa equipe se deparou com familiares extremamente nervosos com a situação. Nanci, a esposa que você tão bem conhece, chegou desolada, acompanhada das duas filhas adolescentes que não paravam de chorar e perguntar pelo pai. As três davam mostras de desequilíbrio e desespero, muito naturais por conta da situação.

Afinal, Carlos era o pilar da família. Com o convívio percebemos que era ele quem dirigia não apenas o dia a dia de sua empresa, mas também a rotina da casa. As decisões – todas – ficavam sob sua batuta. A esposa, moça jovem e inteligente, era artista plástica, com curso no exterior e prêmios internacionais. A ela cabiam as tarefas mais intelectuais, menos práticas. Contas, compras, administração da casa estavam fora das suas atribuições. E a partir daquele momento, a moça de família abastada que sempre fora tratada como princesa e poupada da administração da vida teria que enfrentar o acidente do marido, acompanhar sua luta pela recuperação, encarar possíveis seqüelas e ainda assumir integralmente a empresa e a casa. Um desafio tão grande quanto o de Carlos.

Carlos passou por uma cirurgia complexa, mas de extremo sucesso. Os riscos de seqüelas pouco a pouco eram diminuídos e só o tempo nos diria como aquele pai de família ficaria. Nesses casos a internação é longa. Muitos dias ou meses de UTI, no caso dele foram sete meses. A família costumava revezar o acompanhamento do paciente. Mas com Carlos havia ainda certa diferença, e além dos pais do publicitário, apenas Nanci e as filhas podiam ficar com o paciente. Uma exigência da esposa, mais tarde confirmada pelo próprio Carlos.

Nos primeiros dias, como sempre, a sala de espera ficava lotada. Mais de um acompanhante brigava por permanecer com o paciente, mas após a primeira semana, a vida lá fora é mais forte e precisa ser retomada. No caso de Nanci, as obrigações com a empresa e com a administração familiar se fizeram imprescindíveis. A jovem, antes dondoca e despreocupada, assumia a partir dalí uma nova postura na vida. E, o que parecia impossível, aconteceu: a então frágil Nanci se mostrou uma fortaleza, assumiu os negócios do marido, a rotina da casa, dividiu responsabilidades com as filhas e ainda montou uma rotina de visitas. Mas as atividades eram muitas para um dia de apenas 24 horas. E por vezes, Carlos se encontrava sozinho.

Foi nesse momento, por volta do vigésimo dia de internação que você chegou, Mafalda. Era uma tarde de terça-feira, de um dezembro abafado, quando a vi pela primeira vez, sentada em uma pequena poltrona à beira da cama de Carlos. Toda de branco, saltava-lhe o batom vermelho claro nos lábios grossos. Era discreta, mas ao mesmo tempo sensual. Com estatura mediana, cabelos castanhos claros devidamente presos e com apenas alguns fios propositalmente caídos, vestia um tailleur branco bem cortado e ajustado ao corpo. O decote em “V” era disfarçado pelo estetoscópio. Um charme a parte para deixar os fartos seios meio escondidos. Tudo em você era elegante, sem exageros, só com um pouco de sedução. Seu rosto apesar de marcado por uma expressão forte transparecia também certa delicadeza. Aos seus grandes e vivos olhos não escapavam nada. Suas pernas longas, sempre cruzadas, pareciam prontas para um salto, caso fosse necessária alguma ajuda rápida ao paciente.

Entrei, cumprimentei e você continuou ali, imóvel com aquele meio sorriso de sempre. Passava os dias a fazer companhia a Carlos. Só saia da poltrona para dar lugar a Nanci ou algum parente. Nunca deixou seu posto. Seu nome, Mafalda, parecia não combinar com a jovem e formosa enfermeira. Mas que aos poucos passou a soar agradável em meus ouvidos.

Os meses foram se passando e em pouco tempo Carlos teria alta, voltaria para casa. Era tudo que ele e a esposa desejavam. Afinal, foram sete meses de internação, de angustias, dúvidas e esperanças.

Lembro que pouco antes de Carlos entrar na sala de cirurgia, em seu segundo mês de internação, Nanci veio aos prantos em minha sala. A neurocirurgia era complexa – significava a chance de Carlos recuperar os movimentos ou o risco de perdê-los para sempre. A jovem transparecia nervosismo. Segurou em minhas mãos e perguntou: “Doutor posso confiar, posso ter fé que tudo dará certo?” Minha resposta foi firme: “Confie em Deus e nos médicos que irão fazer a operação. Tudo dará certo”. E ela com olhar marejado e voz fraca balbuciou: “Vou confiar e se tudo der certo, agradecerei a Deus, aos médicos e ao senhor. Como gratidão eu deixarei Mafalda aqui. Sei que o senhor tem apreço por ela. Mafalda será a sua companhia, sua enfermeira especial”. Fiquei espantado com a proposta. Mas naquele momento só me restou abrir um sorriso e consentir com a cabeça.

A cirurgia foi um sucesso. No dia de sua alta – uma manhã fria de julho –, havia muitos pacientes novos, em estado grave e eu só fiz correr de um lado para outro, acompanhando as internações, orientando a equipe… E mal me lembrei da estranha promessa de Nanci, feita aos prantos no dia da cirurgia: “Se meu marido se recuperar, deixarei a Mafalda com o senhor”. De repente, Carla, minha secretaria de muitos anos, me bipou e falou com certo espanto: “Doutor, eu encaminho a Mafalda para sua sala?”

Confesso que perdi alguns segundos tentando decifrar aquela pergunta. “Como?” Respondi meio assustado. “A dona Nanci deixou a Mafalda aqui e queria saber se posso encaminhá-la para sua sala”. Eu disse que sim. Meu coração bateu mais forte. Não é que Nanci havia cumprido a sua promessa…

Andei apressado até minha pequena sala na entrada da UTI, no quinto andar do hospital. Lá estava você, Mafalda, sentada em uma de minhas poltronas, com o mesmo sorriso, com a mesma cruzada de pernas. Não resisti em tocá-la. Abracei-a forte como uma criança. Sem pudor, percorri seu corpo, segurei suas mãos, pernas. Até nos carnudos lábios fiz questão de mexer. Afinal, havia meses essa vontade não me saia da cabeça. Mafalda uma boneca de pano tão perfeita que parecia gente, agora ali na minha sala. Mafalda era só minha, presente de Nanci, uma artista plástica talentosa e bem humorada, que confeccionou a boneca para dar alegria e a sensação de companhia ao marido internado.

Durante aqueles sete meses Mafalda foi uma atração à parte na UTI: Médicos e funcionários de outros andares não resistiam em visitá-la. Parentes de pacientes faziam questão de passar pelo leito de Carlos para dar uma olhada naquela figura caricata. Carlos nunca ficou sozinho e fez muitos amigos por conta da boneca de pano.

Mafalda permaneceu durante muitos anos em minha sala na UTI. Foi visitada por curiosos e ajudou a quebrar o clima tenso do setor. Mas sua principal função sempre foi ouvir os pensamentos desse médico que vive no limiar da vida e da morte. E que encontra em uma obra de arte, feita de pano e de carinho, uma companheira que está sempre a sorrir e disposta escutar com paciência.

Comentários (4)

 

  1. Ricardo Furtado disse:

    Dr. Elias,

    Parabéns por mais esta conquista !!! Li a crônica e fiquei com vontate de também ter uma Mafalda.

    Abs

  2. muito lindo e emocionante! Agente tende a achar que os médicos são feitos de pedra…ledo engano!

  3. Frida GASKO SPIEWAK disse:

    DR. ELIAS
    Parabens- Mazal Tov -grata por todo carinho, palavras boas e compreensão durante o período que o meu querido NATAN Z”L este internado no H.I. Albert Einstein.
    Assim como Vc. tem a MAFALDA-decidi manter nossa casa com muita Alegria,Alto Astral, Fé em D’Us , para perpetuar toda a atitude sempre positiva,maneiras,conselhos, palavras do NATAN Z”L para nossas filhas, genro, netos, e demais amigos e famíliares.
    As palavras memoraveis na UTI em Rosh Hashana de 5764-2003-fizeram a diferença. Novamente muito grata que D’us te Abençoe e proteja e a todos.
    Frida

  4. rita braun disse:

    Mais uma vez senhor me emociona.Quem não o conhece vendo o sentado atraz da escrivania todo de branco com a postura de um sabio, não pode imaginar quanta sensibilidade, emoção e sentimento humano estão escondidos atraz desta imagem de pessoa impar que sr. e. Sinto me privilegiada sendo sua paciente há tantos anos.Gostaria de conhecer a sua Mafalda que deve ter uma porçaõ de coisas interessantes para contar. Abraços. Rita Braun

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