O Ano Novo Judaico– 5782, o “dia do perdão”

“Que todos sejamos inscritos no livro da vida”

Prezados Amigos,

Nos últimos anos tenho sido convidado para fazer uma preleção na cerimonia de Yom Kipur, que é realizada no Hospital israelita Albert Einstein, nesse momento tão solene da tradição judaica e que precede ao Izkor (“recordação”).

No judaísmo o Yom Kipur, o “dia do perdão”, também conhecido como o “dia do jejum”, é consagrado milenarmente o seu dia mais sagrado.

Invariavelmente todos os anos nesse momento tão sagrado sou impelido por uma poderosa força interior, provavelmente influenciada pela tradição judaica e pela memória e ensinamentos de meus pais e avós, a lembrar e a refletir sobre fatos marcantes que tiveram um destaque especial na história de minha vida no ano que passou.

Conforme já ressaltei nas palavras que pronunciei no ano passado o Rabino inglês Lord Jonathan Sachs, falecido há pouco tempo, ressalta que quando se fala de história estamos referindo aos fatos acontecidos e que são relatados em livros, documentos etc… e que podem ser acessados por todos que se interessem pelo assunto.

Porém essa história é a história de outra pessoa.

Memória é minha história, a história que vivi e que incorporei no meu inventario de princípios e valores que adquiri no decorrer de minha vida.

E nessa época do Rosh Hashana e do Yom Kipur, invariavelmente sou tomado de um sentimento muito intenso e profundo que remete a minha história, a minha memória.

Desde o ano passado o mundo enfrenta a pandemia do Coronavírus e esse fato tem trazido uma série de consequências que afetam todos os povos do mundo e cujas sequelas farão parte dos compêndios de história.

Como médico atuante e prestes a completar 50 anos que fundei a UTI do HIAE, e sempre envolvido com problemas de saúde, tenho comparecido regularmente a nossa instituição tratando meus pacientes, inclusive aqueles portadores de Covid-19

A cada dia que passa tenho incorporado ensinamentos e aprendizados que ocupam com destaque o banco de dados de minhas memórias.

Tenho tido a percepção de alguns fatos que se tornaram mais evidentes desde o último Rosh Hashana quando já estávamos bem avançados nessa pandemia.

Percebi o grande envolvimento dos profissionais de saúde, mas de uma forma um pouco diferente que os demonstrados na mídia, quando nas reportagens por ocasião da alta dos pacientes são documentadas cenas com aplausos, balões de festa, e outros requintes de comemoração num momento feliz.

Isso realmente ocorre e sem dúvida são fatos que muito nos emocionam.

Mas quando analisamos retrospectivamente esse fato, percebemos que por traz dessa cena temos uma pessoa que num certo momento de sua vida, foi acometida de uma doença inesperada e que se torna crítica.

Nesse momento, esse ser humano perde totalmente a sua individualidade, seu autocontrole e todo contato e proximidade que tinha com sua família.

Ele não é mais dono de si mesmo e durante longos dias permanece sedado, respirando com a ajuda de aparelhos, dependendo de inúmeros recursos que sustentam a sua vida.

Quando esse paciente acorda e se recupera, não tem a mínima ideia de tudo o que aconteceu. Ainda bem.

Porém, por traz desse cenário existem aqueles atores, os profissionais da saúde, que são os verdadeiros responsáveis pelo sucesso da missão que lhes foi atribuída.

E sua atuação tem sido irrepreensível: desempenham sua expertise com toda inteligência e conhecimento adquirido numa Instituição como o Hospital Israelita Albert Einstein, de alto nível e respeitada por todos.

Mas esses atores do “teatro da vida”, atuam de corpo e alma, com o maior dos esforços e sacrifício, em busca daquilo que é o objetivo de sua profissão: salvar vidas.

E quando conseguem esse objetivo, conquistam uma recompensa incalculável e que não tem preço.

Aquelas máquinas maravilhosas que dispomos são inertes sem a presença desses verdadeiros anjos abençoados.

Há muitos anos sou testemunho desses fatos que se confirmam com ênfase nessa pandemia e que aos poucos parece que está se atenuando.

Um outro fato que tem sido muito comum e que se incorporara definitivamente na minha memória é a postura de muitos familiares, parentes e amigos dos pacientes criticamente enfermos, em relação as suas convicções religiosas.

Muitos deles, se dizem agnósticos, ateus ou descrentes da existência de algum poder superior.

Porém, percebo que nesse momento em que a vida de seu ente querido está por um fio, muitos insinuam algum grau de religiosidade ou espiritualidade dizendo: “doutor, se Deus quiser ou com a ajuda de algum poder superior o nosso querido paciente irá melhorar”.

E em momentos como o que estamos vivenciando, não existe a menor dúvida que precisamos de uma ajuda superior.

Outro fato que ocupa cada vez mais um lugar de destaque no arquivo de minhas memórias é a vivência e o aprendizado que tenho acumulado, em tantos anos de atuação junto aos pacientes graves e seus familiares: temos que ser humildes.

A vida nos ensina em vida, e continua ensinando que independente de raça, cor, religião classe social opção política, etc, os problemas de saúde, as doenças, atingem a todos, de uma forma indistinta e democrática. E quando os pacientes são internados e estão acamados num leito de um hospital percebemos mais uma vez que:

“Na horizontal todo mundo é igual”

A nossa instituição, o Hospital Israelita Albert Einstein, tem liderado e se destacado nessa pandemia atuando de uma forma exemplar.

Nosso time de profissionais de saúde altamente capacitados, continuam se envolvendo de corpo e alma num trabalho árduo e estressante, e que tem resultado num sucesso considerado entre os melhores em todo o mundo.

Se no ano passado, dedicamos uma homenagem especial, nesse dia do Yom Kipur, a memória de 150 mil brasileiros que sucumbiram, atualmente esse número beira os 580 mil que nos deixaram.

Prezados amigos, nos próximos instantes será realizada a cerimônia do Yzcor – recordação – , onde serão relacionados nomes de muitos colaboradores que se dedicaram de corpo e alma a essa instituição e que não estão mais presentes.

Eu tive o privilégio de conhecer e conviver com a maioria deles.

Com certeza eles ficariam orgulhosos em certificar como o Einstein tem se destacado no âmbito mundial e constatar o reconhecimento que a comunidade judaica tem tido em nosso pais.

Nesse momento de recolhimento e introspecção, que estamos sendo obrigados a vivenciar, temos que dar um verdadeiro valor a ética e as coisas importantes em nossas vidas.

Apesar de todos esses fatos antagônicos e obstáculos, a comunidade judaica identifica-se com a tradição de nossos ancestrais e que se perpetua geração após geração.

Continuamos a manter com fervor, sentimento e muita emoção a tradição de comemorar essas datas sagradasanalisando nossos atos, preservando nossos princípios e valores e, principalmente, valorizando o que temos de mais precioso, a vida.

Almejamos dias melhores, com paz, tolerância, integração, sem discriminação, com respeito ao próximo, saúde e felicidades para todos os povos do mundo.

Gmar Chatima Tová

Que todos sejamos inscritos no “Livro da Vida”.

Elias Knobel,

16 de Setembro de 2021