A Páscoa judaica, a “passagem” e o COVID-19

Prezados amigos,

Nessa noite tem início a páscoa judaica, o pessach, que é comemorada numa época próxima da páscoa cristã Esta festividade tem um sentido de liberdade, se contrapondo a opressão e a escravidão que o povo hebreu viveu no regime dos faraós do Egito Antigo.

Pela tradição as famílias sempre se reúnem numa cerimônia de jantar quando se lê a  hagadah, o livro que conta essa história de luta em busca da liberdade, vivida por nossos antepassados. Mas atualmente temos que manter o distanciamento, evitar aglomerações. E portanto utilizaremos a moderna tecnologia de comunicação para que, mesmo a distância nossas famílias e entes queridos fiquem bem próximos, saboreando pratos deliciosos e almejando dias melhores.

A citação bíblica em Êxodo 12:30, simboliza como os fatos se repetem na história da humanidade: “E o povo hebreu obedeceu a Moisés. Ficaram nas suas casas, e as pragas passaram e tudo ficou bem”.

Essa pandemia que nunca antes vivenciamos um dia terá um fim. Mas não será facilmente esquecida, pois todos nós de uma maneira ou de outra sentimos a flor da pele o trauma de uma praga que continua disseminada em todo o mundo e atacando as pessoas independentes de sua classe social ou de outros fatores.

Como médico veterano que sempre atuou cuidando de pacientes graves essa “passagem” tem tido uma conotação toda especial. Nunca vi profissionais da saúde tão envolvidos e unidos para derrotar esse vírus extremamente maléfico.

Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e tantos outros profissionais têm se entregado de corpo e alma, para salvar vidas. As UTIs tem estado abarrotadas de pacientes sob ventilação mecânica e cercados por uma parafernália de equipamentos que sempre faltaram mas que hoje encontram-se distribuídos em vários locais do Brasil. Esses profissionais da saúde, os intensivistas, nunca foram devidamente valorizados e remunerados tendo em vista a expertise e o conhecimento que eles possuem, adquiridos em muitos anos de estudos e treinamento. A mídia tem reconhecido a importância e a necessidade dos mesmos, mas nos que estamos diariamente no “olho do furacão”, mais uma vez reconhecemos, de fato, o valor inestimável que eles possuem. Esperamos que esse conceito de importância dos intensivistas não desapareça assim que as lágrimas quentes que agora todos estão derramando se resfriem e sejam esquecidas.

A Pascoa judaica tem um significado de “passagem”- a passagem que os judeus percorreram no deserto durante 40 anos, fugindo do Egito. Na vida tudo passa, e tudo volta novamente a ocorrer. Haja visto a praga da peste negra, da cólera, da gripe espanhola, etc.

A vida é uma luta constante pela sobrevivência e infelizmente outra pandemias virão. Estamos “passando” por uma, muito agressiva. Temos que estar sempre preparados para as outras que certamente virão. Com muita fé e apoio incondicional a ciência, fugindo das soluções e kits milagrosos que mais destroem do que constroem, conseguiremos, passar por mais esse episódio que ficará indelével na história da humanidade.

Uma boa páscoa, um bom pessach, com muita saúde e felicidades a todos os povos do mundo.

“Vivendo os dias bons,

Sabendo que os ruins não irão faltar,

Entre a tempestade e a bonança,

A angústia e a felicidade,,

Curtindo os intervalos”

Elias Knobel e família.

Março de 2021