Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico – 5781

Prezados Amigos,

As comemorações do Ano Novo Judaico, o Rosh Hashaná, tem início no próximo dia 18/09 e culminam com o Yom Kipur, o dia do perdão, o dia mais sagrado do povo judeu. Cada ano essa comemoração religiosa tem sido acompanhada de algum acontecimento em nível mundial, tais como: guerras, catástrofes, crises financeiras, etc. Nesse ano o mundo enfrenta a pandemia do Coronavírus e esse fato trouxe uma série de consequências que afetam todos os povos do mundo e cujas sequelas farão parte dos compêndios de história. As tradicionais reuniões de família que sempre foram presenciais, no Rosh Hashana, ficarão prejudicadas e muitos usarão a moderna tecnologia da internet para essa celebração. Isso também ocorrerá com as cerimônias religiosas das sinagogas, sendo transmitidas de uma forma inédita e nunca antes observada.

O distanciamento, medida essencial no combate a essa pandemia, nos manteve afastados de amigos, parentes e entes queridos, mas, por outro lado, nos permitiu refletir e fazer uma análise crítica da postura que adotamos no nosso dia a dia.

Como médico e sempre envolvido com os problemas de saúde, observei com atenção, analisando criticamente a reação das pessoas a ameaça que se aproximava de suas portas. Todos com quem tive contato, profissionais da saúde ou leigos, estavam receosos e amedrontados com o que poderia acontecer se fossem atingidos por esse terrível vírus.

Tanto individualmente como nas manifestações na mídia, observei pessoas de todos os níveis sociais, mesmo os mais privilegiados, darem mais valor a saúde colocando em plano inferior os prejuízos financeiros que estavam sofrendo. As classes menos favorecidas, infelizmente, como costuma acontecer, foram vitimadas em todos esses aspectos, saúde e perda de rendimentos básicos de sobrevivência, e tiveram que contar com um mínimo apoio governamental. Em meio a essa insegurança os profissionais da saúde e a própria saúde nunca foram tão valorizados. Manifestações públicas de apoio, valorização e reconhecimento a esses profissionais foram constantes. Mas aos poucos temos a impressão que as “lágrimas quentes” que foram derramadas, estão esfriando e a rotina de dificuldades que esses profissionais enfrentam voltam aos poucos a serem rotineiras.

Historicamente comunidades judaicas em vários lugares do mundo vivenciaram momentos difíceis em epidemias, sendo dizimadas em decorrência do ódio, intolerância e discriminação antissemita. Desde a época bíblica até epidemias como a peste negra, na França em 1348, muitos judeus foram mortos, sendo a eles atribuído a disseminação do vírus mortal. Mesmo nos tempos atuais, muitos ignorantes ou mal intencionados, se manifestam em redes sociais atribuindo aos judeus a causa desse e de outros males do mundo.

Esse momento de recolhimento e introspecção, que fomos obrigados a vivenciar, nos obriga a refletir sobre as condições e as relações interpessoais no mundo que vivemos. E mais do que isso, dar um verdadeiro valor a ética e as coisas importantes em nossas vidas, valorizando o que realmente deve ser valorizado.

Sabemos que a pandemia não desaparecerá por um ato ou decreto, e que teremos que conviver com ela durante um tempo que não podemos precisar, talvez mesmo até as cerimonias de Rosh Hashaná no próximo ano.

Apesar de todos esses fatos antagônicos e obstáculos, a comunidade judaica identifica-se com a tradição de nossos ancestrais e que se perpetua geração após geração.

Continuamos a manter com fervor, sentimento e muita emoção a tradição de comemorar essas datas sagradasanalisando nossos atos, preservando nossos princípios e valores e, principalmente, valorizando o que temos de mais precioso, a vida.

Almejamos dias melhores, com paz, tolerância, integração, respeito ao próximo, saúde e felicidades para todos os povos do mundo.

Shana Tová, Feliz Ano Novo

Elias Knobel e família

16-09-2020