UTI do Einstein – 48 anos

Prezados amigos

Nesse momento de temor e apreensão as pessoas estão recolhidas a espera de um tratamento para combater essa epidemia do COVID-19 . É como se estivéssemos vivendo uma terceira guerra mundial, com uma diferença: o nosso inimigo é invisível e a arma mais poderosa que dispomos é constituída por soldados que estão na linha de frente dessa batalha, os profissionais da saúde.

Já vivenciamos outras ameaças à saúde semelhantes, e, da mesma forma, a mídia e o mundo repentinamente descobrem que existem esses profissionais. Verdadeiros heróis por vocação, tomam a dianteira dessa luta combatendo o inimigo, mesmo sob o risco de sofrerem contagio, doença e até a própria morte. O palco dessa batalha é travado nas UTIs, que abriram suas portas para a mídia trazendo um grande impacto a população que não as conhecem.

Fundamos a UTI do Einstein em 18-5-1972, num ímpeto de fé e coragem pois a especialidade de Terapia Intensiva ainda não existia e poucos dominavam a prática de tratar os pacientes graves. Fomos aprendendo e ganhando experiência em nível nacional e internacional. Com o decorrer do tempo essa UTI ficou conhecida e reconhecida com um serviço de excelência no Brasil e no exterior, tornando-se um cartão de visitas do Hospital Israelita Albert Einstein.

Muitas transformações ocorreram nesses 48 anos. Novas estruturas, equipamentos modernos, tecnologia de primeiro mundo, essa sempre foi uma característica da UTI do Einstein.

Mas o ponto alto dessa UTI sempre foram seus recursos humanos. Os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicólogos, farmacêuticos, gestores e outros sempre estiveram integrados constituindo-se num time único, todos lutando por um único objetivo: salvar vidas.

Não é fácil trabalhar numa UTI. O profissional deve ter um conhecimento amplo, de todas as especialidades, tem que ter habilidades para lidar com a tecnologia, ser dedicado, humano, atender as exigências burocráticas e as necessidades dos pacientes e familiares. Essa tarefa árdua e estressante acarreta um esgotamento emocional, a síndrome do “Burnout”.

Nessa epidemia, pela primeira vez estou longe da frente de batalha. É muito angustiante, assistir, aquilo que já fiz tantas vezes: colegas não medindo esforços, cansados, esgotados, ansiosos e deprimidos e muitas vezes vítimas de contagio, tornando-se pacientes, muitas vezes graves. Vários profissionais da saúde morreram nessa crise, mas cumpriram o seu dever, sua vocação e o seu juramento. São verdadeiros heróis, que agora recebem publicamente aplausos, homenagens, sendo reconhecido o seu papel nessa luta para preservar o maior de nossos valores: a vida.

Mas esses colegas não vivem só de aplausos, homenagens e manifestações de solidariedade. Todos se esforçam para garantir as necessidades materiais, emocionais e outras de suas famílias, as vezes tendo que atuar em vários serviços para conseguir esse objetivo. É fundamental que além desses aplausos e reconhecimento. tenham um plano de carreira, sejam adequadamente remunerados e tenham uma educação continuada.

Habitualmente passo todos os dias na UTI. É o meu caminho para o Hospital, e lá encontro tantos colegas brilhantes e dedicados com quem converso, discuto casos, ensino e aprendo muito com eles. Por vezes quando estou sozinho, olho para aqueles corredores, para as unidades, …. e vem a minha memória um filme que já dura 48 anos: começa branco e preto e aos poucos vai ficando colorido.

Momentos de alegria, muito maiores que os de tristeza e mais vitorias do que derrotas. Vejo nesse filme imaginário, tantas pessoas queridas, colegas, pacientes e até meus pais que aqui estiveram. A emoção transborda e aumenta cada vez mais quando é acrescentada uma velinha na comemoração de um novo aniversário.

O que mais posso desejar nessa fase da vida?

Desejo que essa UTI continue sendo o ponto de honra, a vanguarda, a bandeira na linha de frente do Hospital Israelita Albert Einstein e da Medicina Intensiva de alto nível praticada em nosso país e no mundo.

Que todos continuem atuando como um time único, preservando e incrementando cada vez mais a integração de todos os profissionais.

Que os gestores do HIAE reconheçam o valor dessa equipe e que considerem efetivamente todos os seus membros, como parte essencial do sistema de saúde de nossa Instituição.

E que todos nós sejamos muitos felizes, junto às pessoas que amamos e queremos bem, certos de que estamos cumprindo os nossos deveres e obrigações com todo envolvimento e dedicação.

Muito obrigado a todos os colegas do CTI, que invariavelmente tem me propiciado uma atenção e carinho, que toca no fundo de meu coração.

Parabéns a todos e sejam muito felizes. Vocês merecem.

Elias Knobel