O incrível dilema de médicos: decidir o destino dos doentes

Prezados amigos

O artigo abaixo citado, “A extraordinária decisão que enfrentam os médicos italianos”, parece se referir a um filme de suspense ou de ficção candidato ao Oscar. Chega um certo momento em que o médico que trabalha numa UTI da Lombardia, recebe nessa pandemia de Coronavirus ao mesmo tempo dois pacientes graves para serem internados. Mas só existe um leito, é só um ventilador mecânico! Esse fato incrível e inacreditável está acontecendo em países do primeiro mundo como a Itália. Tenho muitos amigos médicos italianos , professores e chefe de Unidades de Terapia Intensiva conceituadas. Quase todos eles já estiveram aqui em São Paulo e no Brasil e perceberam que ao lado de um padrão médico elevado e UTIS de primeiro mundo, existe uma enorme discrepância em recursos nas UTIs desse país que tem dimensões continentais. As sociedades médicas de terapia Intensiva brasileiras sempre lutaram e demonstraram as autoridades governamentais a necessidade de adequar o número de leitos assim como o de equipamentos, em geral insuficientes principalmente nos hospitais públicos , em especial os do SUS. E raramente foram atendidos.A dedicação que os médicos intensivistas e outros profissionais da saúde estão tendo durante essa crise de saúde , não é inédita. Aqueles que trabalham com pacientes graves , lidam com seres humanos que estão no limite da vida.E para isso , estudam , se especializam, participam em congressos, muitas vezes deixando suas famílias num segundo plano, e se dedicam sempre com o intuito de se aperfeiçoar e recuperar a saúde daqueles cuja vida está por um fio. O que a população está vendo nesse momento é o dia a dia do intensivista, uma das maiores vítimas do estresse e esgotamento profissional (burnout).

Tendo mais de cinquenta anos de uma profissão que muito me honra e orgulha, parece que estou vivendo um pesadelo inédito na minha vida como discípulo de Hipócrates e Maimônides.

O artigo que segue, relata uma situação que ocorre na Italia e como já disse uma vivência diária e comum para os intensivistas brasileiros.

“O princípio que os médicos italianos são obrigados a estabelecer nessa epidemia de coronavirus, é” bem prática e realista”. Com o conceito de maximizar os benefícios para o maior número de pessoas, eles sugerem que “os critérios de alocação/internação precisam garantir que os pacientes com maior chance de sucesso terapêutico é que terão acesso à Unidade de Terapia Intensiva”.

Os autores, que são médicos, deduzem um conjunto de recomendações concretas sobre como gerenciar essas escolhas impossíveis, incluindo: “Pode ser necessário estabelecer um limite de idade para o acesso a terapia intensiva”.

Aqueles que são velhos demais para ter uma alta probabilidade de recuperação, ou que têm um número muito baixo de “anos de vida” restantes, mesmo que devam sobreviver, seriam deixados para morrer. Isso parece cruel, mas a alternativa, argumenta o documento, não é melhor. “No caso de uma saturação total de recursos, manter o critério de ‘primeiro a chegar, primeiro a ser servido’ equivaleria a uma decisão de excluir pacientes que chegam tardiamente para ter acesso a terapia intensiva”.

Além da idade, médicos e enfermeiros também são aconselhados a levar em consideração o estado geral de saúde do paciente: “A presença de comorbidades precisam ser cuidadosamente avaliada”. Isso ocorre em parte porque estudos iniciais do vírus parecem sugerir que pacientes com condições de saúde pré-existentes graves têm uma probabilidade significativamente maior de morrer. Mas é também porque os pacientes em pior estado de saúde geral podem exigir uma parcela maior de recursos escassos para sobreviver: “O que poderia ser um curso de tratamento relativamente curto em pessoas mais saudáveis, poderia demorar mais e consumir mais recursos no caso de idosos mais frágeis.”

Essas diretrizes* se aplicam mesmo a pacientes que necessitam de tratamento intensivo por outros motivos que não o Coronavírus, porque eles também exigem os mesmos recursos médicos escassos. Como o documento esclarece, “Esses critérios se aplicam a todos os pacientes em terapia intensiva, não apenas aos infectados pelo CoVid-19”.

Elias Knobel

Fontes:

  • *RACCOMANDAZIONI DI ETICA CLINICA PER L’AMMISSIONE A TRATTAMENTI INTENSIVI E PER LA LORO SOSPENSIONE, IN CONDIZIONI ECCEZIONALI DI SQUILIBRIO TRA NECESSITÀ E RISORSE DISPONIBIL
  • “The Extraordinary Decisions Facing Italian Doctors”
  • There are now simply too many patients for each one of them to receive adequate care. MARCH 11, 2020
  • Yascha Mounk ,Contributing writer at The Atlantic