O açúcar realmente faz mal a você?

O açúcar realmente faz mal a você?

A decisão do governo federal em atualizar as diretrizes alimentícias no mês passado dividiu os conceitos para os consumidores: Pela primeira vez, começando em 2018, será obrigatório que rótulos nutricionais listem os açúcares totais e os adicionais nos pacotes de alimentos. Mas será que o açúcar realmente faz mal para você? E será que o açúcar adicionado aos alimentos é pior e faz mais mal do que açúcares encontrados naturalmente nos alimentos?

Conversamos com alguns dos mais famosos cientistas que estudam açúcar e seus efeitos na saúde metabólica para ajudar a responder algumas questões de senso comum:

 

Por que os rótulos de alimentos estão sendo revisados?

A mudança aconteceu depois de anos de aviso de vários profissionais da nutrição, que dizem exatamente que o excesso de açúcar é a primeira causa de obesidade e doença do coração, as maiores causa de morte dos americanos. A maioria dos fabricantes de alimentos industriais se opõe a ênfase desse problema acerca dos açúcares adicionados, argumentando que o foco de discussão deve ser sobre as calorias e não no açúcar. Eles dizem que discriminar os açúcares adicionados nos rótulos é anti-científico, e que o açúcar que existe naturalmente nos alimentos – como vegetais e frutas –essencialmente não é diferente do açúcar comumente adicionado aos pacotes alimentícios. Mas comprovar isso cientificamente não é tão simples.

 

Açúcar adicionado difere do açúcar natural dos alimentos?

Depende. A maior parte dos açúcares são combinações de duas moléculas: glicose e frutose, em diferentes proporções. O açúcar contido em uma maçã fresca, por exemplo, é geralmente o mesmo contido na colher de açúcar adicionada em uma torta de maçã feita em casa. Os dois são tecnicamente discriminados como sacarose, e eles são metabolizados no instestino para glicose e frutose. A glicose pode ser metabolizada por qualquer célula no corpo, mas a frutose é processada através do fígado.

“Uma vez que se chega nesse ponto, o fígado não sabe de onde veio – de uma fruta ou não”, disse Kimber Stanhop, uma investigadora da University of California, Davis, que estuda os efeitos do açúcar na saúde. Dra. Stanhop notou que enquanto o fígado pode não saber a origem da frutose (de um refresco ou de uma maçã fresca), a forma com que o fígado processara essa frutose pode ser afetada por um ou outro benefício contido na fruta. Em contraste com um refrigerante, a fruta fresca contém fibras, vitaminas, minerais e outros componentes bioativos. “Nós não sabemos como esses componentes podem contra reagir ou os efeitos negativos de uma overdose de frutose no fígado”, ela disse.

O tipo de açúcar que é normalmente adicionado em alimentos processados é altamente constituído de frutose vinda da seiva do milho, que é utilizado pela indústria alimentícia como um saboroso adoçante para tudo, desde bebidas, molhos, lanches, salada, sobremesa. Ele é produzido comercialmente do amido de milho e é muito mais barato do que o açúcar de cana. Ele contém os mesmos componentes que o açúcar de mesa  – glicose e frutose – mas em diferentes proporções.

 

E sobre adoçantes naturais?

As indústrias de alimento são entusiasmantes em vender néctar de agave, açúcar de beterraba,  caldo de cana evaporado e outros produtos como adoçantes “naturais”, dizendo que eles são alternativas mais saudáveis ao açúcar concentrado em frutose da seiva do milho. Mas qualquer que seja sua fonte, eles são muito similares. Para sugerir que um seja mais saudável que o outro é uma linha tênue. No mês passado, a agência Food and Drug Administration  (FDA ) solicitou que os fabricantes parassem de usar o termo “caldo de cana evaporado”, porque ele é basicamente falso ou leva a um falso entendimento e “não revela os ingredientes básicos e naturais, característicos do açúcar”.

 

A alta-frutose da seiva do milho é pior que açúcar regular? Qual a diferença?

Os dois são tão similares que os profissionais e estudiosos dizem que os efeitos que eles causam no corpo são essencialmente o mesmo.

A grande diferença é que o açúcar da alta-frutose da seiva do milho é usado em bebidas e tende a ter mais frutose. Em um estudo feito em 2014, pesquisadores analizaram cerca de uma dúzia de bebidas populares e descobriram que muitas delas eram adoçadas com alta-frutose da seiva do milho – incluindo Pepsi, Sprite, Mountain Dew, Coca-Cola e Arizona Iced Tea – contendo cerca de 40% de glicose e 60% de frutose. Um açúcar regular contem partes iguais de frutose e glicose.

 

Por que a FDA não obriga que o açúcar seja listado no rótulo com medidas de colher-de-chá e sim em gramas?

Quando esse novo rótulo estiver sendo aplicado, a limitação recomendada para aç[ucar adicionado será de 50 gramas, ou 12 colher-de-chá, diariamente. (Uma colher-de-chá de açúcar tem 4.2 gramas). Mas os novos rótulos devem listar essa quantidade apenas em gramas.

Muitos nutricionistas solicitaram que a FDA exigisse que os rótulos listassem tanto em colher-de-chá como em gramas, argumentando que americanos tendem a subestimar a quantidade de açúcar quando expressada somente em gramas.

Mas o FDA tomou o lado dos fabricantes, que se opuseram à proposta da colher-de-chá.

“Seria extremamente difícil, senão impossível, para um fabricante determinar a quantidade de açúcar de cada nutriente e declará-la”, disse a agência, “Por exemplo, um biscoito feito de gotas de chocolate e frutas secas, teria que discriminar os açúcares contidos na manteiga, além das gotas de chocolate e das frutas”. O FDA também disse que requerer tanto gramas quanto colher-de-chá “Causaria confusão e tornaria os rótulos mais difíceis de serem lidos”.

Para Michael Jacobson, presidente do Center for Science in the Public Interest, um grupo que advoga e que solicitou ao FDA para exigir as medidas em colher-de-chá, disse que a agência estava sobre enorme pressão da indústria alimentícia, “Conhece bem que os consumidores ficam mais preocupados se o produto está dizendo 10 colheres-de-chá do que 42 gramas”.

 

Então qual o problema de ter açúcar adicionado?

Basicamente por causa da forma com que eles são acondicionados.

A ocorrência de açúcar é natural em quase todas as comidas que contém fibra, que retarda as taxas de como esse açúcar é digerido e absorvido. (A exceção é o mel, que não tem fibra). Fibra também limita a quantidade de açúcar que você pode consumir em uma refeição.

Uma maçã média contém cerca de 19 gramas de açúcar e 4 gramas de fibra, o que significa 20% da fibra diária. Nem todas as pessoas comeriam três maçãs em um dia, mas muitos adultos e crianças beberiam uma garrafa de Pepsi, que contem 55 gramas de açúcar – o que tem em 3 maçãs – e nenhuma fibra. Fibra não apenas limita como você pode comer, mas quão rapidamente o açúcar pode sair do intestino e atacar o fígado, Dr. Stanhope disse.

“Você pode facilmente comer aquele tanto de açúcar de uma fruta”, ela disse, “Mas ninguém tem qualquer problema de consumir aquela enorme quantidade de açúcar de uma bebida ou de brownies e biscoitos”.

 

Por que o problema é ingerir “muito açúcar”?

Muitos nutricionistas dizem que o açúcar ingerido em moderação é bom para a maioria das pessoas. Mas em excesso, ele pode levar a problemas metabólicos além de seu efeito no ganho de peso. A razão, estudos sugerem, é a frutose. Qualquer frutose que você coma é enviada diretamente para o seu fígado, que é especializado em transformá-lo em uma substância de gordura chamada triglicerídeos.

“Quando você ingere frutose, quase tudo dela é metabolizada pelo fígado, e o fígado é muito bom em converter essa frutose em gordura”, disse Dr. Mark Herman, um professor em Harvard. Estudos demonstram uma resposta previsível quando as pessoas são perguntadas sobre bebidas adoçadas: um rápido pico na quantidade de triglicerídeos circulando em seu sangue. Isso leva a uma redução em HDL colesterol, o que é conhecido como “do bom colesterol”.

Com o tempo, essa combinação – aumento das triglicérides e diminuição do HDL –  torna-se um dos grandes fatores de risco de doença cardíaca, disse Dr. Anseen Malhotra, um cardiologista e assessor do Fórum de Obesidade do Reino Unido. Essa sequencia de eventos encobre os efeitos do LDL colesterol – o mau colesterol.

“O que muitas pessoas não percebem é que essa combinação de triglicerídeo e HDL é mais propensa de causar doença cardíaca do que o LDL colesterol”, Dr. Malhorta disse. “Não estou dizendo que o LDL não é importante, mas se há uma hierarquia, então triglicerídeos e HDL são mais importantes que LDL.”

Dr. Malhorta disse que quando as pessoas reduzirem o que consomem de açúcar, “suas taxas de colesterol também irão melhorar”.

“Eu vi acontecer em muitos de meus pacientes” ele disse. “Os efeitos são rápidos”.

 

Quanto de açúcar é “muito”?

Um dos maiores estudos sobre consumo de açúcar foi realizado pelo Centers for Disease Control and Prevention, que averiguou que quem consumiu mais de 15% das calorias diárias vindas de açúcar adicionado tiveram maior risco de desenvolver doença cardíaca. Para adultos, isso quer dizer cerca de 300 calorias, ou 18 colheres-de-chá de açúcar adicionados por dia. Pode soar muito, mas atualmente é fácil uma pessoa consumir isso tudo, ou até mais, sem perceber. Uma latinha de Coca-Cola, por exemplo, tem quase 10 colheres-de-chá de açúcar; pode se somar rapidamente.

O estudo descobriu que a maioria dos adultos consome cerca de 10% mais de suas calorias diárias de açúcar adicionado, e que 10% de pessoas, consomem mais de 25% de suas calorias em açúcar adicionado. As grandes fontes de consumo são: bebidas adoçadas, suco de frutas adoçado, sobremesa e balas.

Enquanto esses parecem ser alimentos ruins, Dr. Malhotra disse que cerca de metade do açúcar consumido por americanos estão escondidos em locais menos óbvios, como pão, iogurte de baixa-gordura e ketchup De fato, cerca de 600 mil itens a venda na América, cerca de 80% possuem açúcar adicionado em suas fórmulas.

A tolerância é diferente de pessoa para pessoa. Estudos mostram, por exemplo, que pessoas que já foram obesas são mais suscetíveis ao mal metabólico causado pelo açúcar do que outros. Mas o Dr. Malhotra disse que geralmente adverte as pessoas para seguirem as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) que recomenta que adultos e crianças consumam um máximo de seis colheres-de-chá de açúcar adicionado diariamente.

“Será que posso dizer a você o real limite em que o açúcar impacta na saúde cardiovascular?” ele disse, “Isso é muito difícil, mas eu acredito que se a pessoa segue as diretrizes da OMS, então o risco é reduzido”.

 

Fonte: Well Blog – NY Times

http://well.blogs.nytimes.com/2016/06/08/is-sugar-really-bad-for-you-it-depends/?_r=1